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Aos 32 e fora do top 200, Bellucci mostra por que ainda é maior que muitos

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Imagem: Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

11/11/2020 11h14

O momento, obviamente, não é bom. Os tempos de slams, Masters 1.000 e de top 30 parecem uma lembrança distante. O 21º posto no ranking, melhor marca da carreira, aconteceu há quase uma década. Thomaz Bellucci deixou o top 100 no fim de 2017 e não voltou mais. Saiu até do top 300 por alguns meses e, atualmente, com 32 anos, é apenas o 297º na lista da ATP.

Desistir seria uma opção relativamente simples. Uma excelente carreira, uma reserva financeira considerável (suponho!), uma vida inteira pela frente para pensar em diferentes empreitadas e, por que não, tirar merecidas férias. Bellucci, contudo, não está satisfeito. Ainda quer mais. E é essa vontade, essa persistência, que ainda lhe separa de muitos no mundo do tênis.

O atleta de Tietê deu mais uma prova disso esta semana. Em um circuito desfigurado, com dificuldades para viajar impostas pela pandemia, Bellucci resolveu tentar a sorte no Challenger de Cary, nos Estados Unidos. Quadra dura, prêmio em dinheiro de US$ 7.200 para o campeão e a dificuldade adicional de disputar o qualifying, algo necessário por seu ranking atual. Viagem de prejuízo quase certo, que poucos topariam encarar, mas com um objetivo bem claro: brigar por pontos, posições no ranking.

Thomaz poderia estar dando uma clínica aqui ou jogando uma gincana com seus compatriotas em busca de uns trocados. Passaria semanas tranquilas, bem hospedado, ganhando uns trocados e emendaria com férias e festas de fim de ano. Felizmente, o veterano tem prioridades bem claras e foi até a Carolina do Norte. Passou pelo qualifying e deu o azar de estrear contra o cabeça 5 do torneio, o egípcio Mohamed Safwat. Pois foi lá e bateu o rival por 6/7(4), 6/1 e 7/6(7). Ficou 3h06min em quadra e salvou um match point (veja o último ponto da partida no tweet acima).

"Nunca é fácil jogar torneios menores. As condições de jogo são geralmente muito difíceis, você tem que estar com muita motivação e determinação para passar por cima das dificuldades. Vão ter muitos jogos contra jogadores que têm um currículo inferior ao seu e que querem ganhar de você. Tem que encarar como se fosse um Grand Slam e sempre dar o seu melhor. Quem está neste nível está vendendo o almoço para comprar a janta, então todo mundo quer ganhar a qualquer custo", disse ao Tenisbrasil antes da viagem.

Na frieza da matemática, essa vitória valeu míseros sete pontos no ranking e US$ 860 dólares. Se Bellucci não voltar a vencer no torneio, ganhará, se tanto, três posições no ranking. É pouco. Pouquíssimo para um atleta com seu currículo. Só que também é muito. É muito porque, no grande âmbito das coisas, mostra um pouco mais sobre quem é Thomaz Bellucci e de que ele é feito. Mostra o "saber sofrer", o desejo, a vontade de trabalhar que sempre o colocou acima da maioria de seus contemporâneos.

No fim das contas, Bellucci pode nunca mais ser o tenista que já foi. Pode não voltar ao top 100. Pode ser que nem volte a ficar entre 200. E tudo bem. Todos vivem, cada um de seu modo, ascensão e queda. É nos detalhes, porém, em quaisquer pontos desses aclives e declives, que percebemos quem são, de fato, esses atletas. São as frações que separam homens e meninos. São os elementos que farão os ebooks do tênis registrarem que Thomaz Bellucci merece um lugar de destaque na história do tênis brasileiro.

Obrigado, Thomaz.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.