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Chico Costa: cenário desfavorável faz ex-capitão da Davis rumar à Alemanha

Divulgação / Try Sports
Imagem: Divulgação / Try Sports
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

26/11/2020 04h00

Francisco Costa está longe de ser um dos nomes mais badalados do tênis brasileiro. O gaúcho de 47 anos é caladão, quase o estereótipo do trabalhador que não faz o estilo puxa-saco. Entretanto, Chico, como é conhecido no meio, tem um currículo como poucos no país. Competiu no circuito mundial por dez anos, foi número 140 do mundo, comandou o time brasileiro na Copa Davis por duas temporadas e foi figura essencial do Instituto Tênis (IT), um dos projetos mais interessantes do país, nos últimos dez anos. O ex-capitão, porém, vai deixar o país cedo ou tarde. Já tem acordo com a Tennis University, relevante academia alemã comandada pelo ex-top 100 Alexander Waske.

A história da carreira e da partida de Costa para a Europa se confunde com a história do tênis brasileiro nos 15 anos. O gaúcho deixou o circuito para se tornar técnico de alto rendimento em um momento promissor do país e da modalidade. Assim como a nação, Chico teve vitórias e derrotas e viveu um período de crescimento econômico com o Instituto Tênis. Depois, teve de lidar com as dificuldades financeiras do IT até que não teve seu contrato renovado e encontrou-se em um cenário que praticamente inviabiliza sua sequência na profissão de técnico de alto rendimento dentro das fronteiras verde-e-amarelas.

A ideia era bater um papo rápido para entender os motivos que levaram Costa a buscar trabalho na Europa. As opções no Brasil são escassas? Os salários não são bons? Faltam tenistas? O resultado foi um papo longo e muito mais profundo. Além de desenhar minuciosamente o cenário do tênis brasileiro - "Não acredito que nada de bom vá acontecer no tênis brasileiro nos próximos anos" - e explicar por que é tão difícil ser técnico de alto rendimento no país, o gaúcho lembrou de problemas do Instituto Tênis - "o João Lucas Reis e o Matheus Pucinelli só conseguiram fazer três Futures no México porque um funcionário da administração deu R$ 10 mil para eles" - de situações delicadas na Copa Davis - "A quadra de saibro foi construída em cima de um tablado de madeira" - e listou diferenças entre o tênis argentino e o brasileiro - "O Brasil tem a cultura do atalho, e na Argentina ninguém nem pensa em atalho".

Entre idas e vindas, o papo também passou pela cultura esportiva brasileira, a subvalorização de professores e a influência da ascensão de Donald Trump sobre questões migratórias no mundo, entre outros temas. Não é uma entrevista com declarações bombásticas, mas uma conversa que mostra pontos de vista interessantes e bem diferentes dos da maioria no tênis brasileiro atual. Nesta quinta-feira, publico a primeira parte da conversa, em que o treinador fala sobre sua saída do IT, onde liderou a formação dos promissores Matheus Pucinelli e João Lucas Reis, e a necessidade de buscar emprego fora do país, motivada por um cenário interno pouco favorável.

Quando começaram os problemas financeiros do IT?

No ano de 2017, a gente começou a enfrentar muitos problemas financeiros. Muitos. E problemas crescentes. Houve dinheiro que não foi aprovado pelo Ministério do Esporte, precisamos cancelar viagem faltando um mês para acontecer, tivemos que chamar pais para eles bancarem 50-60-70% do calendário... No pior momento possível, quando a gente tinha uma equipe grande. Estávamos com cinco-seis técnicos de quadra, três preparadores físicos, três fisioterapeutas... A gente estava no momento para explodir, e começou a faltar dinheiro para tocar a operação. Houve uma mudança de governo, o país entrou numa crise financeira, enfim...

Frase Chico 2 - Arte de Alexandre Cossenza - Arte de Alexandre Cossenza
Imagem: Arte de Alexandre Cossenza
Uma coisa foi levando à outra, e as coisas começaram a não acontecer. A geração de jogadores que a gente pegou lá em 2012 começou a ter destaque no circuito juvenil. Chegamos a mandar quatro jogadores para um grand slam juvenil, uma coisa que é difícil para um país inteiro. Quase perdemos o Matheus, que recebeu uma proposta para ir treinar na IMG, nos Estados Unidos. A cada ano, o projeto começou a entrar numa decadência nessa parte. Conseguimos manter a estrutura técnica intacta, não perdemos nenhum jogador, mas 2019 foi um ano muito complicado desde o início. O Instituto perdeu 40% da verba de patrocínio.

Era tudo captado via Lei de Incentivo, né?

Tudo. Ou 90%. E não à toa, Alexandre. A única maneira de se fazer esporte olímpico é através do governo. Os empresários não investem. Quando investem, investem pouco e por período curto de tempo. Dificilmente você vai ver uma equipe como a Colsanitas, da Colômbia. Essa equipe existe desde quando eu era jogador de tênis, por volta de 2000. Estamos falando de uma empresa bancando um projeto esportivo de altíssimo rendimento que mudou o tênis na Colômbia e está lá há 20 anos. Isso a gente não tem no Brasil. Todos projetos de tênis no Brasil são sempre de duração pequena porque as empresas apoiam quando tem um conhecido, um amigo, o filho joga... É uma situação pessoal, não profissional. Muitas vezes isso dura um, dois, três anos. Se entra o poder público, o que aconteceu no Instituto, a gente fica na dependência de o país estar navegando em mares tranquilos.

A Lei de Incentivo é bem intencionada, mas criou um cenário em que ninguém mais quer patrocinar nenhum evento que não seja feito via Lei de Incentivo, então não tem mais o patrocínio direto, que sai da empresa e vai direto para o atleta, uma empresa ou um centro de treinamento. Ou você faz um projeto e depende de o governo aprovar tudo ou você não faz nada no esporte.

Exatamente. Isso é ruim. É claro que dentro dessa engenharia toda que existe nas artes, na música e no esporte, tem muito desperdício de dinheiro. Isso é fato. O problema é que no Brasil tudo fica rotulado. Chegou um momento, a partir de 2017, e em 2018 só cresceu... Uma ideia de que tem que enxugar o estado, tem que acabar com tudo que é projeto, tem que privatizar tudo. E isso afeta todo o esporte de alto rendimento. Depois da Olimpíada, o esporte de alto rendimento só encolheu. E o Instituto Tênis, depois da Olimpíada, começou a encolher. No final de 2018, me chamaram para uma reunião em que eu precisaria demitir pessoas da equipe técnica. Pelo menos um treinador de quadra e um preparador físico. E nós, dentro da equipe técnica, reunimos e todo mundo abriu mão de uma parte do que ganhava para que ninguém fosse demitido. Ninguém fez as coisas de maneira arbitrária porque não é assim que eu me proponho a trabalhar.

Costa parte 1 - Divulgação / Try Sports - Divulgação / Try Sports
Imagem: Divulgação / Try Sports
Bacana.

Só para você ter uma ideia, o dinheiro do Itaú para o Instituto Tênis acabou em agosto de 2019. A gente não tinha nem como terminar o ano. Ninguém sabe. E seria bom se as pessoas soubessem. Fui chamado para uma reunião dos conselheiros para discutir um empréstimo privado para conseguir terminar o ano. Só que esse empréstimo correspondia a 70% do que seria necessário para terminar o ano. Eu tive que liderar um processo de nova redução salarial de toda equipe. O Cristiano (Borrelli, então diretor executivo do IT) saiu nesse momento. Eu tive que me reunir com todos técnicos, preparadores físicos e fisioterapeutas para discutir com eles uma forma de fazer com que aqueles 70% virassem 100% nos quatro últimos meses do ano, para terminar o ano com dignidade, sem perder nenhum atleta e nenhum técnico. Isso foi feito. Não perdemos nenhum atleta. Os atletas não puderam viajar. O João e o Matheus conseguiram fazer três Futures no México porque um funcionário da administração deu [de seu próprio dinheiro] R$ 10 mil para eles.

Um funcionário deu R$ 10 mil?

O Pedro Fiuza, talvez você conheça ele. Ele tinha entrado no IT há pouco tempo. Muito boa gente. Torcedor do Flamengo, do Rio, gosta muito de tênis e escrevia num blog. Ele se aproximou do Instituto bem no meio dessa situação. Todas viagens foram interrompidas de setembro a dezembro. E aí ele se sensibilizou, tinha algum dinheiro e deu R$ 10 mil para o João e o Matheus poderem levar um técnico. Fizeram a viagem mais econômica, jogaram três torneios em Cancún. Conseguiram desconto no resort, uma passagem barata, o técnico topou dormir no chão para não precisarem ficar em dois quartos... Inclusive o João foi campeão de uma etapa e vice da outra. Eles conseguiram fazer uma boa campanha ali para terminar o ano passado. Foi mais ou menos assim que a gente terminou o ano. Eu senti que o sacrifício que eu estava fazendo ia se transformar em alguma coisa boa. [Fiuza foi procurado pelo blog, mas não quis comentar a ocasião. Outros dois funcionários do IT confirmaram a história]

Mas não foi isso que aconteceu, certo?

Antes de eu sair de férias, o substituto do Cristiano já estava ali há uma ou duas semanas. É o Raphael Barone, uma pessoa que não é do tênis. O Cristiano é um cara que fez tênis universitário. O Raphael vinha diretamente da área de gestão. Ele mesmo sempre deixou isso claro, que não tinha relação com o tênis. Ele me chamou para uma conversa, para me avisar que a verba para 2020 era ainda menor do que em 2019, só que a verba teria que durar até dezembro e teria que mandar gente embora. Voltei de férias na primeira semana de janeiro. Estava com certeza absoluta que os planos do IT comigo eram os melhores possíveis. No dia 29 de janeiro, me chamaram para uma reunião. Eu podia esperar várias coisas positivas, mas fui comunicado que meu contrato não seria renovado.

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Eu me contive naquele momento. Continuei dialogando, queria saber os motivos, etc., mas por dentro foi chocante. Sem nenhuma pista antes. Não era a academia do Francisco Costa, longe disso. Mas era minha casa. Eram os meus atletas, que eu treinei desde os 11 anos, que ensinei praticamente tudo. Era uma equipe técnica de treinadores que eu tinha como irmãos mais novos. De repente, é como se o teu chão não estivesse mais ali. "Ah, porque você ficou muitos anos e os resultados não foram tão bons." Mas espera um pouquinho... Vocês me chamaram para pegar caras de 12 anos e quando os caras têm 18 e 19 e chega o momento em que a coisa tem que funcionar... Isso me pareceu algo fora da realidade e nem um pouco honesto como isso foi feito.

Quando falaram que você não deu resultado, qual era o resultado que queriam? Te falaram isso?

O plano original do IT era quando o jogador completasse 19 anos, e o jogador fosse para o circuito profissional, os próprios conselheiros e empresários apadrinharem esse jogador. Ele sairia do projeto e seria bancado de maneira privada. Só que isso nunca aconteceu. Quando me falaram que o resultado não foi o esperado, eu perguntei: "mas o que tu esperava para um jogador de 18 anos? Você achava que um brasileiro de 18 anos tinha que estar entre os 100 do mundo já? Sendo que nos últimos anos o cara não teve dinheiro nenhum para viajar? O pai teve que tirar dinheiro do bolso. Com toda essa confusão financeira que a gente ficou exposto nos últimos anos, vocês acham que o cara tinha que ser um fenômeno?" Aí tu vê que, na verdade, não foi bem isso.

E como você chegou até essa oportunidade de trabalhar na Alemanha?

Quando a poeira abaixou, eu cheguei à conclusão que o único caminho que eu poderia tomar para a minha carreira não dar dois passos para trás seria tentar ir para o exterior, mas a gente estava no início da pandemia. Europa se fechando, EUA se fechando. Por alguns meses, as coisas não andaram nada, mas eu aproveitei para refletir bastante e ver qual era a minha parcela de responsabilidade nessa história toda. Na hora que a gente recebe a notícia ruim, a gente se vitimiza um pouco. Eu tinha todos motivos para isso, mas depois pensei onde talvez eu não tenha tomado a melhor decisão, onde talvez eu não tive a melhor atitude possível. A partir de maio, decidi entrar nas redes sociais, coisa que eu nunca tinha feito. Eu não tinha Facebook, não tinha Instagram, não tinha Twitter... Não tinha nada.

Eu acho isso muito saudável (risos).

Olha só... Eu coloquei toda minha energia nesse projeto. Eu não tinha tempo para nada além da operação e dos pepinos que a gente tinha para descascar o tempo inteiro. E aí é aquela coisa. Quanto tu nunca entra, tu não sente falta. Eu nunca senti falta de estar nas redes sociais.

Mas e na Alemanha, quem você procurou? Como?

Na hora que eu voltei para as redes sociais, comecei a conversar com algumas pessoas e fazer algumas sondagens, sempre nos países em que eu gostaria de morar. Numa delas, eu recebi uma resposta, e a gente começou a conversar. Deixei claro que eu não tenho passaporte europeu, o que é um grande dificultador do processo.

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Desde que o Trump ganhou a eleição em 2016, o mundo andou para uma direção de fronteiras um pouco mais fechadas, uma onda anti-imigração grave que se espalhou pelo mundo inteiro. E isso chegou à Europa. As pessoas que são anti-imigração começaram a sair mais do armário, vamos dizer assim. Essas pessoas viram o mundo globalizado se expandir e ficaram um pouco intimidadas. Nos últimos anos, essas pessoas saíram para a rua e começaram a defender suas ideias de que "aqui não tem que ter estrangeiro" e isso que a gente está vendo todo dia.

Essa coisa vem de cima, né? Quando o cara olha para cima, para um chefe de governo ou chefe de estado, e vê que o cidadão tem uma postura X, o cidadão comum começa a se sentir mais livre, mais solto, para falar tudo que ele pensa de acordo com aquela postura.

O problema é esse, né? Não é nem tanto o que o governante faz, mas o que ele encoraja as pessoas a fazerem.

Exatamente!

Isso se reflete de um país para o outro. A Europa fica um pouquinho na carona dos EUA, embora tenha desenvolvido o euro e seu próprio mercado, mas os EUA ainda exercem uma influência muito grande. Na hora que um cara como o Trump chega à presidência, isso muda o mundo. Não é de uma hora para a outra, mas vai mudando. Então eu deixei claro a questão do passaporte. Nos primeiros contatos que eu fiz, as pessoas disseram a mesma coisa: "Com o teu currículo, é muito fácil." Mas quando eu digo que meu passaporte é brasileiro, muda tudo. E aí o Alexander Waske [que comanda a academia Tennis University], que conheço desde que a gente jogava, foi a única pessoa que falou "Puxa, talvez demore mais, mas a gente já fez isso aqui na academia algumas vezes" e se dispôs a fazer o processo. Tanto que já estamos em novembro e ainda não consegui ir. Eu comecei a conversar com ele em junho, e a gente acertou no início de julho. Ele queria que eu estivesse lá em setembro, mas o tempo mostrou que não tinha como.

Como é o trabalho na Tennis University (TU) ? O que esperam de você?

A Tennis University é uma academia que tem uns 10 anos mais ou menos. Quem abriu foi o Alexander Waske junto com o Rainer Schuettler, que foi top 10, se não me engano. O Schuettler não está mais lá, mas nesses anos todos a academia se tornou uma das melhores da Alemanha e recebe jogadores de todo o mundo. Uma diferença das academias da Europa é o fato de que elas se encontram muito perto de muitos torneios. A Tennis University recebe, por exemplo, australianos que vão para a Europa por dois ou três meses e não vão ficar jogando torneio toda semana. Geralmente, são caras que vêm de longe. Japoneses, australianos, indianos e americanos também. Os sul-americanos são menos por condições financeiras.

Mas a TU recebe jogadores de bom nível que sempre têm uma base na Europa. Um lugar onde eles têm onde treinar, conhecem os técnicos, conseguem onde ficar, etc., para tornar esses giras mais produtivas. Então a TU já tem uma tradição de ser uma academia internacional, com técnicos de outros continentes, o que amplia o leque deles dessa turma que, digamos, é de trânsito. E essas academias da Europa conseguem ter 70-80-90% da sua operação no alto rendimento, diferentemente daqui do Brasil. Aqui, 80-90% da operação gira em torno do tênis social. Então como eles têm essa tradição de receber jogadores de todos continentes que passam temporadas lá, isso eleva a régua da competição. A concorrência entre essas academias [europeias] não gira em torno da propaganda no Instagram. Fica mais no boca-a-boca, na qualidade do trabalho. Jogadores de alto nível vão atrás de um serviço onde eles sabem que uma academia tem três técnicos que foram jogadores, que têm bom currículo, onde encontram caras interessantes para trabalhar, têm jogadores de alto nível para treinar junto, bons preparadores físicos, boa estrutura de quadras, etc.

E você entra nesse cenário dos técnicos internacionais...

Quando ele [Waske] me contratou, ele deixou bem claro que queria me usar - no bom sentido - para também atrair jogadores brasileiros e sul-americanos. Principalmente brasileiros. Tem muito pouco brasileiro que vai para a Europa para treinar. Geralmente, vão para os EUA. Um ou outro vai para a Espanha, para as academias mais conhecidas como a do Ferrero, a Sánchez-Casal, etc. As mais conhecidas. A gente já começou a conversar sobre isso para tentar ganhar algum tempo porque a minha ida, por enquanto, está travada por uma questão burocrática [Costa aguarda o visto de trabalho], mas já conversei bastante com ele por telefone para a gente já tentar procurar alguns caminhos de divulgar a Tennis University no Brasil, eu me apresentar como profissional dessa academia e começar a colocar o que eles têm para oferecer. Pacotes de pré-temporada de verão, pré-temporada de inverno, essas coisas todas.

Estamos numa pandemia, presos em casa, e você está negociando visto de trabalho na Europa, esperando esse processo... Como está processando isso tudo? Ansiedade? Expectativa? Qual é a sensação?

Tem um pouquinho de tudo isso que tu falou, mas sempre dentro de um equilíbrio. Tenho já 47 anos, não estou desesperado para que as coisas aconteçam imediatamente. Eu vim aqui para começar um projeto do zero no Instituto Tênis e fiquei vários anos. De janeiro de 2011 a janeiro de 2020. Coloquei toda minha energia nisso e, infelizmente, houve um rompimento que não foi minha decisão. Lógico que eu não faria qualquer coisa depois disso. Eu penso no exterior como projeto de vida. E tudo isso que eu te falei resume tudo em uma frase: eu não acredito que nada de bom vá acontecer no tênis brasileiro nos próximos anos. Pela dependência de dinheiro público, por quem está no poder, pelas condições financeiras, pela maneira como os empresários que gostam de tênis agem, a maneira como estão acostumados a investir, a maneira como enxergam o tênis profissional...

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Para mim, é muito diferente do que a gente gostaria. São pessoas que não tem muita paciência, que querem que as coisas aconteçam rápido, que não têm vínculo tão profundo com o esporte, que quando qualquer coisinha aperta, eles já pegam o dinheiro e colocam em outro lugar. Não vejo muito por onde a situação do tênis brasileiro vá mudar nos próximos anos. Posso estar equivocado. Tomara que eu esteja equivocado. O país inteiro está se encaminhando para um lugar um pouco desconhecido. A gente não sabe até onde vai essa confusão em que ninguém acredita em ninguém, onde todos os lados são muito fortes. O lado que defende o governo é muito forte, muito intenso. O lado que combate esse governo todos os dias também é muito forte. Nem sempre ele faz esse combate de maneira 100% legítima também.

A gente tem quase duas torcidas, né? Parece futebol.

E acho que tem fake news de todos os lados. Na minha cabeça, o Brasil ainda vai piorar antes de melhorar. Então minha vontade de ir para o exterior é para continuar fazendo o que eu gosto, para ter a possibilidade de estar no circuito de alto rendimento - aqui no Brasil, essa possibilidade fica limitada depois de ter saído da principal instituição que se propunha a fazer isso. E também pessoalmente, pensando na educação do meu filho. Se eu conseguir ficar 10 anos na Europa... Ele tem 7 anos, vai ter 17. Para a formação dele, isso seria extremamente positivo. Não tenho dúvidas.

Faz sentido. Sobre o cenário do tênis brasileiro, não tem tanto técnico bom, falta jogador ou qual é a questão?

O tênis brasileiro não oferece um bom mercado para o tênis de competição. Poucos ex-jogadores são treinadores de alto rendimento. O cenário é propício para o tênis de negócio. Essa é minha visão. Os caras que querem continuar vivendo do tênis partem para virar empresários do tênis, para montar uma academia, vender um curso, uma clínica, etc. O mercado de tênis competitivo é muito restrito. Quantos jogadores do Brasil têm condições de contratar um técnico de maneira particular? O Thiago Monteiro e talvez o Thiago Wild, agora que está com ranking bom. Mas até ontem só tinha o Thiago Monteiro, a Bia Haddad, que agora não está no seu melhor momento, mas teve alguns anos, e acabou. E aí a outra pergunta: quantos centros de alto rendimento existem no Brasil. Tinha o IT, que era só para isso, mas hoje está se tornando uma academia comum, que tem diversas atividades. Tem a Tennis Route, que o alto rendimento é o carro-chefe, mas é uma academia também com tênis social e diversas coisas. O espaço é restrito, não pode ter muito atleta, não pode ter muito técnico também. Depois você tem academias privadas, onde o alto rendimento não é o carro-chefe. Muitas vezes essas academias têm um jogador juvenil que joga legal, que é o cara que sai na foto com o técnico, o dono da academia. Então no Brasil, infelizmente, o tênis de competição escapou para o tênis de negócio há muito tempo já. Os caras que jogam profissional e querem continuar vivendo do tênis não conseguem enxergar essa alternativa de viver como treinador de alto rendimento. Para eu ser treinador, alguém tem que me contratar. E quem é que contrata um treinador? Quem é que paga bem por um treinador? Ninguém! Ninguém paga bem por um treinador! Talvez um ou dois jogadores, e deu. Centro de treinamento? Esquece! Olha o que está acontecendo com o Instituto Tênis. Eu respeito todos os técnicos que estão lá, convivi muitos anos, mas nenhum deles jogou tênis. Então isso não é de graça. É porque a figura do treinador, no Brasil, está distorcida. Quando se fala "eu sou treinador de tênis", a maioria dessas pessoas são empresários, na verdade. Na minha visão, treinador é o cara que treina uma equipe, um jogador ou grupo pequeno de jogadores e acabou. Quando o cara é treinador e treina 30 caras e trabalha em três lugares diferentes, não é treinador. É empresário.


Na segunda parte da entrevista, a ser publicada na sexta-feira, Costa fala sobre a importância de um centro de treinamento nacional, a relação entre a falta de tenistas e o baixo número de treinadores capacitados no Brasil, a experiência e situações delicadas na Copa Davis, além de contrastes entre o tênis argentino e o feito no Brasil.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.