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Daniil Medvedev foi brilhante no ATP Finals, mas calma com a badalação

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

23/11/2020 13h07

A campanha de Daniil Medvedev que terminou com o título do ATP Finals de 2020 foi irretocável. O russo de 24 anos, atual número 4 do mundo, derrotou Novak Djokovic, Rafael Nadal e Dominic Thiem rumo ao maior título entre os não-slams do circuito mundial. Na história do evento, jamais alguém havia derrotado os números 1, 2 e 3 do mundo. E se ninguém fez isso em 51 anos, essa raridade toda tem algum motivo.

Medvedev tem muito mérito. Foi consistente do começo ao fim do torneio e soube ajustar seu estilo de jogo às necessidades que cada desafio apresentava. Contra Djokovic, ainda no segundo jogo do torneio, defendeu-se bem, foi extremamente regular e viu um desmotivado número 1 do mundo tombar sem oferecer tanta resistência. Dois dias depois, foi extremamente agressivo e não deu ritmo a Schwartzman, que certamente gostaria de pontos mais longos.

No fim de semana, contra Nadal e Thiem, Daniil venceu de virada, jogando muito bem os pontos importantes e, novamente, fazendo ajustes táticos. No sábado, diante de Rafa, foi impecável quando o espanhol sacou para o jogo. Além disso, deixou de responder na cruzada os slices do espanhol. Quando passou a direcionar seus backhands na paralela, levantou uma questão que o número 2 do mundo não conseguiu responder à altura. Além disso, o russo soube escolher bem os momentos de fugir do backhand e atacar com a direita o forehand do espanhol. Tarefa dificílima, mas executada à perfeição.

Depois, diante de Thiem, viveu situações semelhantes. Viu o rival sair na frente, mas cresceu quando o austríaco desperdiçou um ponto quase ganho em um break point. Novamente venceu o tie-break do segundo set e, assim como na véspera, já não sofreu tanto com os slices do rival na parcial decisiva. Game, set, match e muitos aplausos para Medvedev.

As qualidades de Medvedev já são bem conhecidas. Ainda que em um pacote com mecânicas pouco ortodoxas, o russo sabe fazer de tudo em quadra. Tem um ótimo saque, forehand e backhand poderosos (que ele usa com certa frugalidade favorecendo sempre a consistência), e bom toque para curtinhas e idas à rede. Sabe variar peso de bola, altura e ângulos como poucos. Além disso tudo, Daniil tem rara velocidade para alguém de 1,98m, embora suas longas pernas o façam parecer mais lento. Pura ilusão. Seu poder defensivo e de contra-ataque não é pequeno. E se parece exagero que alguém tenha tudo isso, a maioria do que acabo de escrever pode ser comprovada no rali do tweet acima - em um momento um tanto importante do jogo.

O que falta?

Todos esses elogios nos levam a algumas questões: por que Medvedev, então, ainda não venceu um slam? Por que é "apenas" o número 4 do mundo, atrás de Djokovic, Nadal e Thiem? A resposta curta, resumida e um tanto superficial é que falta colocar tudo isso em prática com mais frequência, o que é mais fácil de falar do que fazer, especialmente diante de contemporâneos como Djokovic, Nadal e Thiem, além, obviamente, de Federer, Zverev, Tsitsipas, Rublev e tantos outros tenistas tão capazes.

A quem elogia a consistência de Medvedev, é preciso lembrar que o russo teve um 2020 nada empolgante até o Masters de Paris, três semanas atrás. Antes da paralisação do circuito, Daniil somou oitavas no Australian Open, primeira rodada em Roterdã e quartas em Marselha. Após a pausa, foi às quartas em Cincinnati, fez uma semi no US Open e caiu na primeira rodada em Hamburgo e Roland Garros. Ainda caiu nas quartas em Viena e nas oitavas em São Petersburgo antes de, finalmente, ser campeão em Paris e Londres.

A quem ressalta a enorme capacidade mental de Medvedev como uma das melhores do circuito, é preciso lembrar que, pouco mais de um mês atrás, o russo praticamente entregou o primeiro set da semifinal do US Open após um desentendimento com o árbitro de cadeira. Nesse mesmo jogo, cometeu um grave erro mental no tie-break do segundo set (uma curtinha horrorosa quando sacava em 7/7) e perdeu 3/0 de vantagem na terceira parcial. É uma crítica que soa exageradamente exigente, mas é inegável que o lado mental de qualquer tenista parece mais sólido nas vitórias. É quando as coisas não dão certo que vemos quem é realmente forte de cabeça. É tentador elogiar (e exagerar!), mas vale a cautela.

Coisas que eu acho que acho:

- Thiem fez duas grandes partidas - Nadal e Djokovic - mas deixou a desejar na decisão. Não foi muito diferente no Finals do ano passado, quando Domi bateu Federer e Djokovic, mas perdeu a final para Tsitsipas. Minha opinião aqui é que Thiem ainda não é um grande jogador de decisões. Não é questão de jogar bem as finais, mas de quase sempre elevar seu nível a outro patamar no dia mais importante do torneio. Quando isso acontecer, aí sim ele estará pronto para subir ao topo do ranking.

- Nadal teria uma chance interessante de conquistar seu primeiro Finals se tivesse fechado o jogo contra Medvedev no segundo set. É um grande "se", admito, e que seria seguido de uma final nada simples contra um rival por quem ele foi derrotado na fase de grupos. Mas seria uma chance mais interessante do que as que ele teve quando fez finais contra Federer e Djokovic.

- É cruel colocar deste jeito - mas é assim sempre que se faz esse tipo de análise - porém as derrotas de Nadal e Djokovic, do modo que aconteceram, foram decepcionantes. Rafa sacou para o jogo, e Nole teve 4/0 no tie-break decisivo contra Thiem. Não é todo dia que isso acontece. E ambos aconteceram no mesmo dia.

- Troca da guarda? Nova geração assumindo o circuito? Muita calma nessa hora. Lembremos que os dois Finals anteriores foram vencidos por Tsitsipas e Zverev, que ainda não conquistaram slams. O domínio seguiu com os três grandes. Além disso, não sei se ainda cabe o termo #NextGen, que a ATP tanto adora. Thiem, aos 27, já é quase veterano. Medvedev, aos 24, também já não é mais um garotinho.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.