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Saque e Voleio

Doc sobre Vilas é comovente relato de jornada por correção histórica

Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

30/10/2020 04h00

Um tenista sul-americano que ganhou quase o dobro de seus rivais em determinado momento, mas nunca foi considerado número 1 do mundo pela ATP. Um jornalista argentino obcecado que trabalhou por 13 anos, sacrificando a família e o casamento, para reconstruir a matemática do ranking mundial na década de 1970 e provar que o órgão que rege o tênis masculino falhou. Um matemático romeno encontrado em um fórum na internet e disposto a colaborar sem cobrar um centavo porque se sensibilizou com a causa.

"Vilas: Serás Lo Que Debas Ser O No Serás Nada", documentário que estreou recentemente na Netflix (o título no Brasil é o infeliz "Guillermo Vilas: Esta Vitória é Sua"), é muito mais do que uma retrospectiva do maior homem sul-americano a segurar uma raquete de tênis. Trata-se também do relato da jornada heróica do jornalista Eduardo Puppo e do matemático Marian Ciulpan para levantar provas e corrigir o que eles consideram um erro grave da ATP.

Eduardo Puppo - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix
Sim, o filme repassa a brilhante carreira de Vilas, desde Mar del Plata, onde tudo começou, até a parceria com o técnico Ion Tiriac e as oito finais de grand slam (quatro títulos). A história é contada com o uso de áudios gravados pelo próprio Vilas de 1973 a 1979. Inúmeras fitas cassete com um valor histórico impossível de calcular, em que o argentino lembra de vitórias e derrotas, mas também fala de como Woodstock mudou sua vida e de como o encontro com um filósofo indiano, apresentado por Thomaz Koch, influenciou sua maneira de pensar (Koch contou essa história ao Saque e Voleio alguns anos atrás).

Vilas número 1 - Reprodução/Netflix - Reprodução/Netflix
Imagem: Reprodução/Netflix
Tudo sobre a carreira de Vilas já seria o bastante para convencer qualquer um a ver o filme, mas o documentário ganha muito em emoção (e este escriba aqui derramou mais do que algumas lágrimas enquanto jantava e assistia à película - nada a ver com a pimenta do frango coreano) quando mostra o esforço hercúleo de Puppo, que passou mais de uma década dando telefonemas, juntando chaves e fazendo contas - a maior parte do tempo, sem sequer avisar o tenista.

E o filme dá outro salto na escala emotiva quando junta Vilas e Puppo. Primeiro, com o relato do jornalista sobre a reação de Willy quando soube da missão do compatriota. Depois, com o vídeo de agradecimento enviado pelo tenista a Ciulpan. Por último, com um gran finale à altura da história, mostrando a conexão entre Vilas e Puppo, que vibraram e choraram juntos nas idas e vindas com advogados e a ATP.

Vilas diz que "quem escreve a história é o tempo. O tempo te dá tudo." Se a ATP não o colocou no topo do ranking e até hoje não admite erro nas contas, gente como Bjorn Borg afirma que o argentino foi o melhor e merecia ter sido número 1. E o tempo... Bem, o tempo nos deu essa linda história de um gênio das quadras e do trabalho heróico de um jornalista. "Vilas: Serás Lo Que Debas Ser O No Serás Nada" é preciso, sensível, brilhante. Obrigatório para todo e qualquer fã de tênis.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.