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Carol Meligeni desabafa: circuito para poucas, desunião e egoísmo no tênis

Alexandre Carvalho
Imagem: Alexandre Carvalho
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

13/07/2020 14h22

O circuito feminino marcou seu retorno para o dia 3 de agosto, com o WTA de Palermo, na Itália, mesmo diante de um grande debate interno em que se discutem os méritos e a validade de um circuito em que a grande maioria das atletas não vai poder competir. Com fronteiras fechadas em vários países - inclusive na União Europeia - a chave do evento italiano ficará limitado a atletas que vivem no continente e um punhado de países próximos.

A situação não era muito diferente nos torneios menores, cuja organização fica a cargo da Federação Internacional de Tênis (ITF). Até pouco tempo atrás, o calendário feminino da entidade confirmava a realização de um evento com premiação de US$ 25 mil em Nonthaburi, na Tailândia, onde apenas atletas nascidas no país poderiam competir.

Diante de um "retorno para poucas", surgiu um movimento de tenistas pedindo mudanças. Entre elas, a brasileira Carol Meligeni. A ideia era pedir que o circuito só voltasse a existir quando todas pudessem competir em igualdade de condições. Na última semana, várias atletas postaram mensagens com as hashtags #postponetennis ("adiem o tênis") e #healthfirst (saúde primeiro).

Entre os argumentos, o grupo cita que apenas 10% das atletas poderiam voltar a disputar torneios; que na Índia, metade do estados ainda nem permitiam o uso de quadras de tênis; que até setembro, não será possível sair da Argentina; e que mais de mil brasileiros morrem por dia e que do país não é possível viajar para EUA e Europa no momento. A mensagem principal dizia que não deveria haver jogo se todas não podem jogar ("no play if all can't play" - veja abaixo).

"Estava todo mundo achando um absurdo porque eles iriam tentar recomeçar [o circuito] para alguns, sendo que a instituição é uma instituição para todos. A gente começou com essa ideia, que era fazer uma carta e mandar para as pessoas responsáveis", contou Carol, em entrevista por telefone no último domingo. O documento chegou ao painel de jogadores da WTA e à ITF. "Foi uma tentativa de entrar em contato, mostrando nosso lado, da primeira forma possível, mais pacífica - entre aspas, senão a gente tomava uma atitude um pouquinho mais drástica", completou a campineira, atual #402 do mundo.

A resposta oficial apenas confirmou a volta do circuito no dia 3 de agosto, com a justificativa de que o novo ranking, que contará pontos de 22 meses (março de 2019 a dezembro de 2020), será feito assim também para não prejudicar quem não puder ou não se sentir segura para viajar e competir. As tenistas viram no posicionamento da entidade pouca atenção à realidade de partes do mundo como a América do Sul e às opiniões de atletas - inclusive europeias - que não se sentiam seguras para viajar.

"Então a gente criou uma hashtag que a maioria possível de tenistas postou na internet. A gente sabia que ia ser difícil de ter alguma real mudança fazendo isso, só que era o que estava ao nosso alcance."

O resultado teve sucesso parcial: o torneio tailandês da ITF foi adiado. A WTA, por sua vez, não só manteve o torneio de Palermo como incluiu um torneio novo evento nos EUA, que será o WTA de Lexington, marcado para começar no dia 10 de agosto, quando também será jogado o WTA de Praga.

Carol Meligeni - Alexandre Carvalho - Alexandre Carvalho
Imagem: Alexandre Carvalho
Desunião entre tenistas

Um obstáculo para uma maior abrangência do protesto foi a falta de união das próprias atletas. Há quem prefira ver o circuito voltar mesmo que seja para um pequeno grupo de competidoras em potencial.

"Na minha cabeça, não consigo imaginar que é normal alguém pensar desse jeito. Acho totalmente egoísta. Tem toda uma ideia de união e não sei o quê. Na verdade, é uma tremenda mentira. É um absurdo normalizar a segregação de um esporte que, mesmo sendo individual, é para todos. Não é nem metade! É bem menos disso que pode voltar [a jogar]. Na minha cabeça, não entra."

"Nenhuma revolução, de todas revoluções que aconteceram no mundo, aconteceu com um só falando para o outro que concorda. Para mim, é muito foda eu ver falta de posicionamento. Vem me incomodando cada vez mais. Não sei se eu herdei do Titio Fino, mas sério, me incomoda. Não consigo entender. Você ter voz, poder se posicionar e não fazer."

Além disso, há uma parcela de tenistas que concordam com o protesto e se dizem contra a volta do circuito nos grupos de atletas, mas que preferem não se manifestar publicamente.

"Eu vejo muita gente, muitas super bravas e achando um absurdo, querendo revolucionar, mas na hora de postar acha que não tem relevância porque não vai mudar nada na ITF. Aí não posta e faz 100 publiposts por dia. Sei lá... Ou você abraça a causa que te envolve ou você discorda. Ninguém está te impedindo de discordar. Não estou falando de monopolizar um pensamento, mas se é uma coisa que você sabe que te afeta - e afeta diretamente - não vejo por que não participar do movimento."

"Nenhuma revolução, de todas revoluções que aconteceram no mundo, aconteceu com um só falando para o outro que concorda. Para mim, é muito foda eu ver falta de posicionamento. Vem me incomodando cada vez mais. Não sei se eu herdei do Titio Fino [Carol é sobrinha de Fernando Meligeni, que nunca evitou dar opiniões fortes em público], mas sério, me incomoda. Não consigo entender. Você ter voz, poder se posicionar e não fazer só por, sei lá, rabo preso ou porque não sei, não sei!"

Paralisação para todos, retorno para poucos

Outra queixa de Carol Meligeni no que diz respeito à desigualdade vindo da Federação Internacional lembra dos critérios diferentes usados para interromper e reativar o circuito mundial. A paralisação aconteceu em março, quando os casos de covid-19 se multiplicavam na Europa, mas em outros continentes, como a América do Sul, o risco de contrair a doença eram menores. No entanto, o circuito foi interrompido no mundo inteiro ao mesmo tempo. Agora, ao optar pelo retorno das competições, a ITF e a WTA o fazem quando o risco é menor na Europa, mas há muitos casos - e mortes - em outros lugares, como no Brasil.

"Uma coisa que me deixa muito brava nessa situação é que se você for ver, começou a explodir o coronavírus na Itália e na Espanha, e eles automaticamente pararam o circuito. A gente estava no meio de um torneio [em Olímpia, SP], o Brasil não estava explodindo ainda [em casos de covid-19], e eles pararam o torneio. Todo mundo concordou porque era um evento que envolve pessoas de todos os países, então beleza. Só que agora eles estão querendo retomar porque eles estão bem, só que a gente não está bem ainda. Então não dá para entender. Cada um só pensa no seu nariz. É muito bizarro."