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5 possíveis consequências do Adria Tour para o circuito mundial

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

25/06/2020 04h00

Agora que o Adria Tour foi cancelado e todo mundo está (ou deveriam estar) na torcida para que todos que contraíram covid-19 se recuperem prontamente, é hora de analisar o que o circuito organizado por Novak Djokovic deixa de legado para circuito mundial e todos interessados em organizar um torneio de tênis no futuro próximo. O que ficou de lição? Quem sofreu o maior prejuízo? Algum brasileiro será afetado? É isso que tento responder nas próximas linhas, imaginando o cenário internacional do tênis em um futuro próximo.

Djokovic pode deixar a presidência do Conselho dos Jogadores?

Pode. Acho até que deveria, não só porque há alguma pressão após o que aconteceu no Adria Tour, mas porque o cargo vem se mostrando especialmente desgastante para Nole desde os debates que terminaram com a substituição do CEO da ATP, no ano passado. As voltas de Roger Federer e Rafael Nadal ao Conselho foram, claramente, uma amostra de que os dois tenistas de maior prestígio no tênis masculino não estavam satisfeitos com a direção que as coisas tomavam - o que tem a ver diretamente com a postura e a influência de Djokovic nas votações. Além disso tudo, não pegou nada bem a ausência do número 1 do mundo na última grande videoconferência de jogadores (o sérvio estava em Belgrado, envolvido com o Adria Tour). Deixar o cargo por vontade própria pode ser uma maneira de Nole se concentrar apenas no tênis, o que ele faz de melhor. Sua saída pode deixar muita gente contente. Inclusive ele próprio.

Que recados os casos de covid-19 no Adria Tour dão para o circuito?

Acredito que aqui há dois pontos importantes. O primeiro é que não se deve subestimar o vírus. Mesmo em um país com poucas mortes (proporcionalmente falando) e um número modesto de infectados, existe o risco, e há oito provas vivas disso. Torneios de tênis envolvem pessoas que viajaram de partes diferentes do planeta e passaram horas dentro de aviões, em situações em que o risco de contágio é maior. Não dá para presumir que o risco é zero nem se apegar a eventuais legislações mais frouxas em certas partes do planeta.

O segundo ponto é que os torneios precisam entender que estão lidando com a variável mais perigosa de todas nessa equação do coronavírus: o ser humano. A não ser que todos estejam confinados e vigiados 24/7, é impossível ter controle total do que vai acontecer no evento. O caso recente do Orlando Pride é um excelente exemplo. Parte do time resolver desafiar as porcentagens e foi a um bar. Resultado? O time teve abandonar uma competição. Mesmo que os organizadores tenham todo cuidado, ainda é preciso contar com a dedicação e o cuidado das centenas de pessoas envolvidas em cada torneio, de funcionários a atletas e técnicos. Não é fácil.

O US Open pode ser cancelado?

Ninguém vai falar oficialmente que sim neste momento, uma semana depois de uma coletiva em que a realização do torneio foi confirmada com muita pompa, com direito até a tweet do governador de Nova York. Faltam, no entanto, dois meses para o torneio. O que acontece se a Big Apple tiver uma segunda onde de covid-19? E se o torneio de Cincinnati, realizado na semana anterior com chaves masculina e feminina, tiver meia dúzia de casos de contágio? É só desclassificar os tenistas e seguir em frente? Pode não ser simples assim.

Obviamente, há muito dinheiro e muitos interesses envolvidos, então é de se esperar que a USTA (federação americana de tênis) vá fazer o possível para colocar o US Open em andamento. Contudo, eu não apostaria meu (pouco) dinheiro hoje nem cravaria com certeza absoluta que vai haver torneio.

É preciso considerar, ainda, a hipótese de a USTA endurecer as regras e o controle de contágio durante o US Open. Por enquanto, a entidade anunciou medidas um tanto frouxas. Os tenistas podem se hospedar onde quiserem (no hotel oficial ou em casas alugadas) e não serão vigiados. Além disso, a expectativa é de 1-2 testes por semana em cada jogador, o que não é tanto assim. Dependendo do timing desses testes, um atleta pode alcançar a final e ser testado só uma vez. Estaria longe do ideal.Depois de ver e analisar o que aconteceu com o Adria Tour, considerando ainda o imprevisível elemento humano, a USTA faria bem em endurecer o controle de covid.

Por outro lado, a entidade sabe que quanto mais duras as regras, maior a chance de que nomes de peso desistam de viajar até Nova York para competir. Até o momento, poucos tenistas declararam publicamente que vão ao US Open com certeza.

Quem perdeu mais com o Adria Tour?

Novak Djokovic é o nome óbvio aqui. O sérvio foi o organizador do torneio e de todas atividades extraquadra, e tudo aconteceu sem distanciamento social ou medidas realmente eficientes de prevenção. Quando criticado, antes dos testes positivos, o número 1 se defendeu argumentando que fez tudo de acordo com o que as autoridades locais (tanto na Sérvia quanto na Croácia) permitiam. É verdade. Também é verdade que Nole é uma pessoa inteligente, sabia dos riscos e não deveria ter terceirizado a culpa. Só depois de tudo é que ele assumiu sua parcela de responsabilidade. Tarde demais.

Tenisticamente falando, todos que foram e competiram têm sua porção nesse balde extra large de culpa coletiva. Não adianta Grigor Dimitrov aparecer na coletiva dizendo "saúde acima de tudo" (vejam no vídeo acima) ao comentar o US Open se ele viaja até os Bálcãs para participar do bacanal covidesco que foi o Adria Tour. O mesmo vale para Zverev, Cilic, Rublev, etc. - especialmente Troicki, que está com a mulher grávida e, agora, doente. Toda essa turma perde enorme poder de barganha na hora de questionar qualquer medida preventiva do US Open ou de qualquer outro evento.

Os casos positivos do Adria Tour afetam algum brasileiro?

Diretamente, não. Indiretamente, talvez. Como não dá para descartar a ideia de que a USTA pode enrijecer as medidas de controle, é preciso considerar que atletas viajando do Brasil, país em um momento mais do que delicado da pandemia, podem ser prejudicados de algum modo. Ontem mesmo o governador de Nova York, Andrew Cuomo, determinou que todos viajantes chegando a Nova York vindo de estados com números significativos de covid devem respeitar uma quarentena de 14 dias.

Vale lembrar que no dia do anúncio oficial do US Open a USTA distribuiu um comunicado afirmando ter recebido garantias do governo federal de que atletas e seus times não terão problemas para entrar no país. Por outro lado, é difícil acreditar 100% em garantias durante o governo Trump. Por fim, o mesmo documento da USTA afirma que "se você viajar a Nova York e o evento for cancelado, um ressarcimento de viagem será fornecido a cada circuito" (ATP+WTA). Trocando em miúdos, nem a USTA descarta o cancelamento do US Open.

Bônus: alguém ganhou com o Adria Tour?

No mundo do tênis, não. Fora das quadras, palmas para o governo de Montenegro, que não permite a entrada de cidadãos sérvios neste momento. Pelos parâmetros montenegrinos atuais, só podem entrar no país cidadãos de lugares onde há no máximo 25 casos de covid-19 por 100 mil habitantes. De rebarba, ganha também a Bósnia, que teria duas etapas do Adria Tour e colocaria em risco milhares de espectadores em Sarajevo e Banja Luka.