PUBLICIDADE
Topo

Carta Aberta - Guga, o Brasil ainda precisa muito de você

Divulgação/Escola Guga
Imagem: Divulgação/Escola Guga
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

11/06/2020 04h00

Caro Guga,

Parabéns por hoje. Parabéns pelo título de Roland Garros/2000, que completa 20 anos nesta quinta-feira. Parabéns por "sair" do Brasil, com todas as qualidades e desafios que isso significa, e alcançar tudo que alcançou em uma carreira tão memorável quanto surpreendentemente curta. Você surfou no mar e na terra, sorriu e fez sorrir, chorou e fez chorar. Comoveu uma multidão que foi apresentada a um esporte meio de repente, quando aquele garoto da camisa da Rayovac saiu do nada para um título em Paris. Pena que durou pouco. Você deixou a gente querendo mais, torcendo por mais, acreditando que, até com meio quadril, dava para vir mais.

Esta cartinha de parabéns, que eu poderia ter simplesmente dito a você em algum dos momentos que compartilhamos nos últimos 15 anos, vem aqui no blog, aberta mesmo, porque também é uma mensagem de muito obrigado e acho justo que os leitores deste espaço saibam o quanto eu, o Saque e Voleio e tantos outros devem a você. Valeu, Guga. Valeu por fazer crescer no meu - no nosso! - país o esporte pelo qual me apaixonei com Andre Agassi. Valeu por fazer tanta gente se interessar em aprender o que são duplas faltas, erros não forçados, smashes, swing volleys e drop shots. Valeu pelos backhands de dentro para fora e de fora para dentro. Valeu pelos sorrisos. Valeu pelas lágrimas. Valeu por aproveitar o máximo da brevidade que lhe foi concedida. Você deixou a gente querendo mais - e alguém já deve ter escrito isso muito antes do primeiro parágrafo desta carta.

E se me permite um agradecimento um pouco mais pessoal, valeu pelas entrevistas. Coletivas, exclusivas, via Skype e Zoom. Rio, Floripa, Newport, Rio Preto, Miami... Onde quer que fosse, sempre houve algo de especial nesses encontros. Por sua causa, sentei para conversar com gente como Lleyton Hewitt, Yevgeny Kafelnikov, Michael Russell, Novak Djokovic, Kei Nishikori (o Nishikori foi de pé mesmo, mas essa é outra história) e outros. Obrigado pela videoconferência de segunda-feira. Obrigado pelos 10 minutos em que ficamos sentados juntos na primeira Semana Guga, 11 anos atrás, vendo um de seus jogos contra o Kafelnikov. Obrigado pela aula de gestão de imagem em Miami no ano passado. Desse encontro, sempre vou levar com carinho o momento em que você me chama para falar do meu peso. Não pela aparência. Não para fazer piada, como muitos certamente fariam. Você queria só saber da minha saúde e foi um gesto muito bacana (sobre meu emagrecimento, deixo para outra carta [emoji de sorriso envergonhado]).

Acompanhar você fora das quadras desde 2008 tem sido interessante. A gente cresce, amadurece, as prioridades mudam. Faz parte da vida. É assim com todo mundo. Nem sempre concordei ou gostei do que você falou, do que fez ou deixou de fazer. Internamente, sempre quis que você fosse mais crítico aos cartolas do tênis no Brasil - especialmente com relação a Jorge Lacerda, que, você bem sabia, tomou muitas atitudes prejudiciais à modalidade (e nem estou falando aqui de nada ilegal ou criminoso). O caso do COB com a Diana também me magoou. Você não teve culpa ali, claro, mas eu sempre quis ver um Guga que denunciasse mais esse tipo de atitude de dirigentes. Mas ok, não tem necessariamente certo ou errado aqui. Discordamos e tudo bem. O Guga de 43 anos não é o mesmo que foi bicampeão com 23. Também tenho 43 e sei bem que sou muito diferente de minha versão 20 anos mais jovem.

Por tudo que você fez pelo Brasil, por você, por mim e por muitos outros, é um direito adquirido ficar em casa, cuidar da família, fazer seus negócios crescerem e não queimar neurônio com politicagem. Quem sabe? Talvez eu fizesse o mesmo se estivesse no seu lugar. Não me cabe julgar, só torcer. E quando muitos disseram, muito antes dos dois primeiros parágrafos desta carta, que você nos deixou querendo mais, talvez seja um abuso de nossa parte esperar ainda mais, desejar ainda mais.

Certo ou errado, justo ou injusto, foi especialmente comovente para mim ouvir parte da videoconferência de segunda-feira. Foi delicioso ver um Guga menos labrador e mais pastor alemão (talvez meu amigo e seu fã Renato Maurício Prado discorde da analogia). Foi saboroso ver um ídolo nacional questionar a democracia brasileira e lembrar que o povo nunca se sentiu de fato no poder. Você colocou o dedo na ferida de todos nós - como sociedade - que adotamos um conceito de sucesso que só está ao alcance da minoria. Parabéns por apontar o quanto a desinformação na internet nos puxa para trás. Obrigado por pedir condições de vida mais justas e lembrar que há heróis à nossa volta em todo momento. E, sobretudo, valeu por lembrar que o Brasil, com mais chances para mais gente, pode ter gênios - como você - em todas as áreas.

Tudo que você disse, Guga, independe de lado. Direita, esquerda, centro... Dá para chegar lá por qualquer caminho, desde que com pessoas certas e ideais corretos. Pena que a bipolaridade que ancora o Brasil de hoje faça tanta gente perder tempo dançando atrás do próprio rabo em vez de pensar, conversar e caminhar. Que bom seria se mais pessoas lessem e interpretassem corretamente o que você nos disse naquela conversa. Que lindo seria se você nos desse esse puxão de orelha mais vezes. Que fantástico seria se a mensagem fosse dita e repetida e repetida até fazer sentido para todos. É por isso, Guga, que escrevo e repito: o Brasil ainda precisa muito de você.

Parabéns.
Obrigado.
Um abraço.

Alexandre Cossenza

P.S.: Espero que você goste do Especial que preparamos no UOL para marcar este 20º aniversário do título de Roland Garros 2000.