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Murray e Djokovic: sobre o maior da história e o jogador perfeito

Michael Dodge/Getty Images
Imagem: Michael Dodge/Getty Images
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

18/04/2020 04h00

No quarentênico cenário que foi inundado de lives irrelevantes e sem grande conteúdo, Andy Murray e Novak Djokovic criaram sua própria ilha artificial durante uma hora nesta sexta-feira. Os dois bateram um papo interessantíssimo sobre carreiras, experiências positivas e negativas, sucessos e fracassos. Falaram sobre que resultado gostariam de mudar em suas carreiras, abordaram o debate sobre o melhor tenista da história e montaram seus tenistas perfeitos.

Foi uma conversa riquíssima em detalhes não só sobre gerenciamento de carreiras e sensações ao longo de uma vida, mas também em técnica e estratégia no tênis. Entre os destaques, a opinião de Murray de que os três melhores da história competem ao mesmo tempo (e, por isso, é possível compará-los e certo modo), e a avaliação de que Roger Federer tem uma qualidade subestimada em seu jogo de rede. Traduzi alguns dos trechos da conversa e coloquei abaixo um vídeo com a íntegra do papo.

Um resultado que ambos mudariam em suas carreiras

Djokovic: acho que seria relacionado aos Jogos Olímpicos. A partida que fiz contra você (Murray) em Londres ou Rafa em Pequim (2008). Eu perdi na semi, também um jogo apertado. Esteve 3/3, 4/4, eu tive 15/30 ou 15/40 ou algo assim e perdi por 6/4 ou 7/5 no terceiro. Errei um smash muito fácil, que é muito típico na minha carreira. ? Acho que eu diria Jogos Olímpicos porque tive a sorte de ganhar todos os quatro slams e todos Masters Series. Eu ganhei o bronze em Pequim, mas estava me sentindo muito bem, por exemplo, em 2016, no Brasil, no Rio, e Del Potro, que acabou jogando com você na final, foi uma partida muito difícil, de dois tie-breaks (o argentino eliminou Djokovic na primeira rodada nos Jogos Rio 2016). Eu lembro que dois dias antes da partida eu estava treinando, me sentindo ótimo. Perdi na terceira rodada de Wimbledon, então tive tempo para me preparar. Vim para o Rio cheio de confiança. Tive os 15 melhores meses da minha carreira antes do Rio e então lembro que treinei simples por duas horas e fui treinar duplas com os sérvios por uma hora e meia e comecei a sentir meu punho no fim do set de duplas que jogamos. Primeiro, eu pensei "estou cansado", você sabe? E começou a ficar mais e mais dolorido. Não quero que soe como desculpa. Não foi por isso que perdi para Del Potro. Recebi uma injeção, entrei em quadra e tentei, mas fiquei triste porque não estava no meu melhor e tive uma chave muito dura. Senti que se tivesse uma chave um pouco melhor, eu meio que poderia encontrar um caminho no torneio. Então provavelmente, se eu tivesse a chance de voltar no tempo, eu provavelmente mudaria Rio ou o jogo com você em 2012 (Djokovic perdeu a semifinal em Londres 2012 para Andy Murray, que conquistou a medalha de ouro).

Murray: é uma partida contra você. Qual você acha que é? (Djokovic responde que deveria ser uma na Austrália, mas Andy responde que era a de Roland Garros, onde eles fizeram a final em 2016 e Djokovic venceu) Obviamente, eu adoraria ter vencido Roland Garros ou o Australian Open, mas acho que como desafio para mim? Porque o saibro foi a superfície mais difícil para mim ao longo da carreira. O saibro era o mais difícil para eu me adaptar. Acho que teria sido meu maior feito se tivesse conseguido vencer na França. Obviamente, o Australian Open tem sido muito dolorido graças a você ao longo dos anos (risos), mas se eu pudesse mudar um, seria o Aberto da França.

O melhor de todos os tempos: que recorde é o mais importante na discussão?

Djokovic: acho que é uma combinação de slams, semanas como número 1, Masters 1000 e confrontos diretos. Acho que os grand slams provavelmente se destacam, mas é muito difícil dizer. Eu tenho a sorte de estar na conversa e fico honrado, mas ao mesmo tempo é difícil dizer "maior de todos os tempos" considerando o número de slams, o número de títulos ou qualquer coisa. Eu já disse isso a todos e tenho essa opinião desde sempre: não entro na conversa de comparar gerações.

(Murray concorda, mas acha que os três melhores estão na mesma geração, então é possível compará-los)

Murray: Você jogou 55 vezes contra Rafa e 50 vezes contra Roger, e Rafa e Roger jogaram 40 vezes. Temos esse número de partidas entre os melhores, então não é preciso comparar gerações. Os três melhores estão jogando agora. Difícil de julgar e, claro, não sabemos o que vai acontecer no futuro, como cada um vai terminar e tudo mais, mas também acho que nesta conversa, o que é diferente dos outros esportes é que temos superfícies diferentes. Para mim, agora, o histórico de Rafa no saibro.. Ninguém compete com isso. O histórico de Roger em Wimbledon é o melhor. E o seu histórico nas duras é o melhor. Então, por causa das superfícies diferentes, é meio difícil. Eu sinto que estou competindo contra o melhor de quadras duras de todos os tempos, o melhor do saibro em todos os tempos e o melhor da grama em todos os tempos. Pra mim, atualmente, depende do piso.

Djokovic: é difícil para mim falar mais sobre isso porque estou no meio. Acho que é bom para o tênis que temos esse tipo de conversa e estejamos competindo ao mesmo tempo. É incrível. E acho que não temos a consciência desses resultados, dos feitos e da proporção, da profundidade da conversa no mundo dos esportes porque ainda estamos no meio da tempestade, de certo modo. Acho que só quando eu terminar a minha carreira, poderei observar as coisas de um ponto de vista neutro e dizer "esta é minha opinião sobre isso, isso e aquilo." Por enquanto, o que você disse, sobre ter três caras dominando três pisos diferentes, concordo 100%. O que o futuro vai trazer para nossas rivalidades, eu obviamente não sei. Não somos mais tão jovens.

Golpe a golpe, o tenista perfeito

O jogador de Djokovic

Saque: Isner ou Kyrgios. John, obviamente, tem um grande saque, independentemente da altura, mas é claro que seu tamanho ajuda nisso. Mas Nick, para sua altura, tem o melhor saque que enfrentei e que vi.

Devolução: eu vou com a sua devolução. Acho que, claro, jogar contra você em qualquer piso sempre foi um desafio, mas das três maiores rivalidades que tive, com Rafa, Roger e você, o mais difícil era sacar contra você porque parece que tudo voltava. Deve ser uma sensação parecida para você quando nos enfrentamos. Quando vejo nossas partidas, nos highlights? E até quando não vejo os highights e assisto a ponto a ponto, são tantos ralis? Se eu ganho um ponto de graça no primeiro saque contra você, comemoro como se tivesse ganho um set. Honestamente, acho que sua devolução? Você consegue ler o saque tão bem? Posicionamento?Você consegue bloquear, bater, então eu iria com você.

Forehand: o Thor de Tandil, Del Potro. Eu adoraria o forehand de Fernando Gonzalez. Mas eu iria com Roger a Del Potro. Difícil escolher um. Só posso escolher um? Delpo.

Backhand: eu escolheria o seu backhand pela consistência, as mesmas coisas que você disse. O fato de você não errar muito e tornar a vida do oponente muito difícil. Quando eu jogava contra você, eu não conseguia penetrar daquele lado. Você protegia o backhand tão bem. (Murray diz que Djokovic tinha certo sucesso daquele lado) Eu sentia que nós dois esperávamos pela bola certa para tentar a paralela. Nos respeitávamos o backhand do outro tanto e ambos tínhamos muita profundidade que não esperávamos ganhar o ponto com o backhand cruzado. Acontecia, mas de modo geral, eu tinha mais chance de vencer se eu fosse com uma bola forte e chapada no meio, no seu forehand, ou tentasse te abrir com uma bola no forehand e forçasse você a se esticar e talvez usar um slice? Algo assim. Mas eu também mencionaria o backhand do Stan. Ele é incrível, especialmente no saibro, em pisos com quique alto. Quando ele tem tempo, chega na bola, se posiciona bem, provavelmente é o melhor backhand que há. A maneira como ele te tira da quadra? A cruzada é como o forehand de Rafa, te tira da quadra tão bem? E entre os mais jovens, Medvedev. O backhand dele me lembra do seu.

Voleio: Roger definitivamente estaria lá. Ele é um dos jogadores mais completos da história. Todos sabemos o quão grande ele é. O que acho que é provavelmente é subestimado? As pessoas não falam tanto da capacidade dele de fazer saque e voleio com precisão nos momentos mais difíceis da partida. Contra a gente, que somos ótimos devolvedores, ele não se sente tão intimidado. Especialmente nas superfícies mais rápidas, ele atrapalha seu ritmo. Nós dois temos grandes devoluções, mas preferimos se o adversário ficar atrás e entrarmos nos ralis, certo? O que ele faz tão bem há tanto tempo é tirar seu tempo. Saque mais uma bola. Ele chega tão rápido na rede! E a qualidade do primeiro voleio e o posicionamento na rede são provavelmente subestimados. Provavelmente alguns caras voleiam melhor, se você isolar a técnica. Caras como Feliciano? Mas Roger, em termos de como bem ele usa seu jogo de voleio no cenário completo.

Mental: Rafa, com certeza. Tudo, em geral, é? Rafa. É óbvio que a mentalidade de campeão, o que ele conseguiu produzir ao longo dos anos em todos pisos, como se recuperou de tantas lesões? Acho que ele foi quem mais se lesionou entre nós quatro. Acho que ele a cada duas temporadas tem algo por vários meses e consegue voltar. A resiliência que ele mostra na quadra, a intensidade que ele traz? Quando você vê ele saltando antes de entrar em quadra, isso já te intimida. Cria esse desafio na sua mente. "Oh, meu deus, estou indo encarar um gladiador na arena." É um gigante mental. Sempre senti que mentalmente fica entre ele Roger, com certeza. Se eu preciso escolher, escolho Rafa por margens muito pequenas.

Físico: demos o mental para Rafa. Eu provavelmente diria Rafa de novo, mas vamos talvez escolher outro. Eu diria Dominic Thiem ou David Ferrer. Entre os dois, eu amava o espírito de luta de Ferrer. Fisicamente, tão em forma? Não se lesionou tanto, sempre foi um guerreiro na quadra, alguém que respeito muito. Dominic Thiem também. Eu dou uma vantagem a Ferrer aí porque ficou mais tempo no circuito. Dominic, com sorte, vai ficar muito mais anos, mas eu diria David Ferrer.

O jogador de Murray

Saque: eu diria o mesmo. Se você desse a Kyrgios a altura de Isner? Eu já treinei com ele algumas vezes e apenas no aquecimento. Ele não faz nada para o ombro e consegue sacar de jeito inacreditável. Ele tem tanta força fácil. Muito dos caras com quem converso sobre tênis dizem que não, de jeito nenhum. Não é Nick.

Devolução: vou com você pelo mesmo que você disse. Difícil de fazer ace, difícil de ganhar ponto de graça e também raramente você erra devoluções. Às vezes, eu olhava as estatísticas, via as devoluções colocadas em jogo e ficavam 93%, 94%. É difícil. A maioria dos jogadores fica nos 70%.

Forehand: eu escolho Rafa. Sinto que a coisa de canhoto ajudou ele. Talvez houve um período curto em que o forehand deixou ele na mão em algumas partidas, mas foi muito raro na carreira dele que o forehand tenha sido o golpe que contribuiu para ele perder jogos, então escolho o forehand dele.

Backhand: escolho você no backhand. Obviamente, pouquíssimos erros, capaz de mudar de direção e um golpe que você faz e ninguém mais consegue nas quadras duras é o backhand defensivo deslizando, escorregando na perna esquerda, a perna de fora, e ninguém mais consegue fazer isso. Isso significa que a quadra fica muito menor para o adversário porque você consegue se recuperar mais rápido. Eu, nesse golpe, teria que dar um passo a mais para parar. Você desliza e para mais rápido, encolhendo a quadra para o adversário.

Voleio: alguns caras podem fazer certos voleios melhores, mas de modo geral, ele tem o toque, a sensibilidade, ele consegue fazer mais voleios melhor do que a maioria dos caras. Ele é um dos poucos caras que fazem isso sob pressão. Alguns caras voleiam muito bem e não os vi fazendo isso nos grandes momentos, tirando grandes golpes. Roger faz isso.

Mental: difícil, mas eu diria se olhasse para a carreira toda, para cada partida individual, consistentemente Rafa seria o mais forte. Acho que às vezes você estaria na frente dele no quesito mental, mas ele, olhando toda a carreira... Mesmo quando ele era muito jovem, ele sempre foi incrivelmente forte mentalmente. Mesmo quando tinha 18-19 anos, o que é muito muito raro para a maioria dos garotos chegando. Eu diria que é a parte mental que leva mais tempo... Se você pegar alguns dos mais jovens, não é o tênis, mas é a parte mental que eles precisam melhorar. Desde jovem, ele era ótimo nesse aspecto. Para você, isso veio um pouco mais tarde e, então, se tornou um ponto forte do seu jogo.

Físico: eu iria, em termos de potencial físico, de Monfils. O que ele consegue fazer fisicamente é uma piada. Mas fisicamente, eu provavelmente escolheria você (Djokovic).

Saque e Voleio