PUBLICIDADE
Topo

Imigrante, 'penetra' e cheia de personalidade: saiba quem é Sofia Kenin

Sofia Kenin com o troféu de campeã do Australian Open 2020 - Reuters
Sofia Kenin com o troféu de campeã do Australian Open 2020 Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

01/02/2020 14h32

O Australian Open feminino chegou ao fim neste sábado, coroando uma nova campeã de slam: a americana Sofia Kenin, de 21 anos, que derrotou a mais experiente Garbiñe Muguruza de virada, com uma atuação inteligente, eficiente e corajosa. Adjetivos que vêm como consequência de uma rara combinação que resultou na Kenin de hoje: DNA russo e um histórico de "penetra" em torneios na infância.

Sofia, na verdade, nasceu em Moscou, na Rússia, e foi levada ainda pequena para os Estados Unidos para onde pais se mudaram em busca de melhores condições de vida. A relação com a terra natal ainda é forte. A jovem só conversa com a família no idioma nativo, e os amigos mais próximos lhe chamam de Sonya - o apelido russo para Sofia. Até pouco tempo atrás, até sua conta no Instagram usava o nome Sonya em vez de Sofia. E se isso tudo não bastasse, o camarote da equipe de Kenin neste sábado ainda contou com a presença da ex-número 1 do mundo Dinara Safina, que ajudou o time.

A vida de imigrante não foi fácil para os pais, e Alex Kenin, pai e técnico de Sofia, diz que aqueles tempos têm, sim, relação com a tenista que a filha se tornou: "Acho que deu força a ela. Não acho que ela tenha sentido todos os sacrifícios que tivemos que fazer, mas ela sabe deles. Quando chegamos no país, foi muito, muito, muito difícil. Eu tinha que trabalhar à noite e estudar de manhã e dirigir em Nova York sem falar inglês. No rádio, eles me diziam aonde ir, e eu não entendia o que diziam. Foi muito duro. É incrível o que se é capaz de fazer quando é preciso sobreviver. Ela sabe disso, mas graças a Deus, não precisou passar por isso", disse Alex à WTA.

O pai ressaltou também que isso ajuda a explicar o sucesso de tantos russo no esporte: "Acho que tem algo aí. A origem. A origem é muito dura. Dura e amarga. O que há em volta é decoração, mas há algo por dentro."

Alex e a mãe de Sofia, Lena, também tiveram influência na familiaridade da filha com o tênis. Eles não só introduziram Sofia no esporte que o pai praticava como hobby mas também a levavam sempre que possível a torneios nos Estados Unidos. E mais do que isso: frequentemente encontravam uma maneira de colocar a filha de "penetra" dentro de quadra em eventos de caridade, exibição ou Pro-Ams (torneios de duplas com profissionais e amadores).

É por isso que a internet está cheia de vídeos da pequena Sofia. Um dos mais famosos é de quando ela tinha 7 anos e foi entrevistada pelo Tennis Channel (onde é apresentada como Sonya). Ainda meio tímida, fala sobre o que faria para devolver o saque de Andy Roddick.

Em uma das entrevistas pós-jogo neste Australian Open, Jim Courier lembrou de quando jogou um evento com a pequena Sofia - outro feito dos pais, assim como o dia em que conseguiram que a filha ganhasse de Kim Clijsters um tour dos bastidores do torneio de Miami. Vejam abaixo:

A timidez ficou no passado. Ainda que não tenha mostrado tanta familiaridade com o microfone ao fazer o discurso de campeã neste sábado - Sofia até admitiu que era o primeiro e que ela tentaria fazer seu melhor - a americana agora é um livro aberto em quadra. As emoções estão sempre à flor da pele, seja comemorando um winner, queixando-se de um erro bobo ou desabafando ao sair por cima de um momento delicado do jogo.

As reações são de todo tipo. Sofia quica a bola com raiva, atira a amarelinha para o alto, pisa com força no chão, leva as mãos ao rosto, gesticula com os braços, faz cara de ironia, fecha os olhos gritando "meu deus" e faz cara de desentendida. Tudo isso, às vezes, num intervalo de cinco minutos e com uma marca registrada: um andar eternamente apressado - uma mistura dos passos de pombo de Andre Agassi com a tensão do carioca que vê o último ônibus do dia e sabe que existe o risco de o motorista não parar no ponto.

Esse combo resultou em uma atleta destemida e que aprendeu desde cedo as minúcias do esporte (no primeiro vídeo deste post, ela explica que precisa de uma preparação curta para devolver o saque de Roddick). Não por acaso, derrubou Serena Williams em Roland Garros no ano passado. E não foi só isso. Na última temporada, também acumulou triunfos sobre Naomi Osaka, Ashleigh Barty e Elina Svitolina.

Neste domingo, tudo se encaixou. Kenin foi inteligente para mudar taticamente a final contra Muguruza e corajosa para disparar cinco winners seguidos e sair de um delicado 0/40 no set decisivo. Foi, certamente, uma atuação memorável, e tudo sugere que não será a última.

Torne-se um apoiador do blog e tenha acesso a conteúdo exclusivo (posts, podcasts e newsletters semanais) e promoções imperdíveis.

Acompanhe o Saque e Voleio no Twitter, no Facebook e no Instagram.

Saque e Voleio