Topo

Rodrigo Coutinho

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quais mudanças Vitor Pereira fez em 30 dias no Flamengo

Colunista do UOL

03/02/2023 04h00

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

Com um mês de trabalho no Flamengo, já é possível entender quais são as mudanças propostas por Vitor Pereira em relação ao trabalho deixado por Dorival Junior. É óbvio que fazer juízo de valor definitivo torna-se impossível pelo pouco tempo e pela escassez de enfrentamentos de alto nível para testar a equipe, mas o caminho traçado nos últimos 30 dias é nítido.

Antes de aprofundar a análise, é preciso frisar o contexto em que o português chegou. O Flamengo tinha acabado de ser campeão da Copa do Brasil e da Libertadores. Tinha um time-base que a torcida não questionava, e a maioria dos jogadores vinha em boa fase. Promover mudanças maiores neste cenário é basicamente impossível.

Sem contar o ambiente do vestiário. O elenco rubro-negro tem peso histórico na trajetória recente do Mais Querido. Há figuras muito grandes na hierarquia interna. Elas participam ativamente com opiniões durante a montagem do time e o planejamento estratégico. Vitor Pereira sabe disso e não seria louco de chegar neste cenário com o ''pé na porta''.

Time-base com trocas pontuais, problemáticas e obrigatórias

O Flamengo perdeu dois titulares em relação ao time que terminou 2022. Rodinei teve seu contrato encerrado e se transferiu para o futebol grego. João Gomes foi vendido ao Wolverhampton. A reposição até aqui tem sido um problema.

Na lateral-direita, Varela parece ser o preferido de Vitor Pereira, mas além de ter características diferentes em relação a Rodinei, pois se trata de um lateral menos agudo e forte para chegar tantas vezes à linha de fundo, não vive uma boa fase técnica.

01 - Gil Gomes/AGIF - Gil Gomes/AGIF
Lateral Guillermo Varela, do Flamengo, em ação durante partida do Brasileirão de 2022
Imagem: Gil Gomes/AGIF

Matheuzinho vem aproveitando melhor as oportunidades, mas não pode ser considerado um titular atualmente. Qualquer um dos dois não tem atuado no mesmo nível que Rodinei jogou no segundo semestre de 2022. E é lógico que isso vem afetando a produção de jogadas pela direita.

No meio-campo, Gérson entrou na vaga de João Gomes. O camisa 20 rubro-negro tem mais qualidade na articulação, potencial no passe, habilidade, mas o time perdeu em intensidade defensiva, poder de recomposição, capacidade de coberturas e compensações que eram feitas constantemente por João e equilibravam o coletivo da equipe.

As mexidas não têm o dedo de Vitor Pereira, mas ele vai precisar encontrar soluções para minimizar a queda de produção em relação a 2022.

Fim do losango e volta do esquema de Jorge Jesus

O Flamengo encaixou taticamente no ano passado a partir do momento em que Dorival definiu o meio em forma de losango. Deu mais liberdade a Arrascaeta, e fixou João Gomes e Everton Ribeiro circulando pelo centro, apoiando o uruguaio na construção. Thiago Maia era o primeiro volante. E na frente, uma dupla de ataque livre para se mexer.

02 - Rodrigo Coutinho - Rodrigo Coutinho
O losango no meio por trás da dupla de ataque do Flamengo em 2022
Imagem: Rodrigo Coutinho

O esquema deixava lacunas para se defender pelos lados. Vitor Pereira chegou a apontar isso quando ainda era treinador do Corinthians e chegou perto de vencer a final da Copa do Brasil contra o próprio Flamengo, no Maracanã. Então seria natural que mudasse a formatação tática da equipe. E montou algo muito próximo da proposta de Jorge Jesus em 2019.

Um 4-4-2 que varia para um 4-1-3-2 em diversos momentos. A chave para isso, assim como ocorria há quatro anos, é Gérson, que se projeta entre Everton Ribeiro e Arrascaeta mais a frente. Eles flutuam para o meio e abrem o corredor para que os laterais ocupem os flancos. Na frente, Gabigol circula mais, com propensão maior ao lado direito, e Pedro fica fixo na área.

O problema surgido em muitos jogos até aqui é o ritmo da circulação da bola e os movimentos de desmarque dos jogadores. Tem faltado intensidade. Poder ser pelo início da temporada, mas não dá para desconsiderar que são atletas quatro anos mais velhos em relação a melhor impressão que deixaram no rubro-negro. Como já são jogadores de maior pausa e menos aceleração, isso pesa.

02 - Rodrigo Coutinho - Rodrigo Coutinho
Como Palmeiras e Flamengo iniciaram a Supercopa do Brasil 2023. E a nova formatação tática do time rubro-negro
Imagem: Rodrigo Coutinho

Mundial sob pressão

Achar a melhor saída desta equação é outro desafio de Vitor Pereira. Se apresentou muitos problemas defensivos contra o Palmeiras no principal teste da temporada, a parte ofensiva foi vacilante diante de adversários mais frágeis, como Madureira e Boavista. Há mais a fazer do que o imaginado inicialmente.

O Flamengo não tem necessariamente a obrigação de ser campeão do mundo. Sabe-se que o Real Madrid, mesmo longe de sua melhor fase, tem jogadores com maior potencial na escala do futebol internacional. Passar da semifinal, porém, e fazer um bom papel diante dos merengues, dará paz para que o português possa desenvolver algo verdadeiramente autoral a partir da metade de fevereiro.