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REPORTAGEM

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Garota que trocou atletismo por rúgbi tem ascensão meteórica na seleção

Gabriela Lima, da seleção brasileira de rúgbi - Divulgação
Gabriela Lima, da seleção brasileira de rúgbi Imagem: Divulgação
Demétrio Vecchioli

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Dedicado à cobertura de esportes olímpicos, escreveu para o UOL, para a revista Istoé 2016, foi colunista da Rádio Estadão e, antes do Olhar Olímpico, manteve o blog Olimpílulas. Neste espaço, olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. No Olhar Olímpico têm destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa. Se você tem críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas, escreva para demetrio.prado@gmail.com

21/01/2022 04h00

Quantos jogos, ao longo dos anos, desde a base, um atleta precisa fazer até se tornar destaque da seleção brasileira adulta? Duzentos? Trezentos? No caso de Gabriela Lima, nem 15. Ex-atleta de atletismo, ela migrou para o rúgbi há apenas dois anos, e neste fim de semana, na Espanha, pode começar suas primeiras partidas como titular na seleção feminina de sevens, versão olímpica do rúgbi.

Cria do projeto do professor Paulo Servo em Curicica, no Rio de Janeiro, de onde saíram, entre outros, Jorge Vides, Derick Silva (campeões mundiais de revezamento junto com o agora BBB Paulo André) e Rosângela Santos, Gabriela foi destaque nas categorias de base, correndo os 100m com barreiras. No adulto, veio a São Paulo para treinar e competir pelo Pinheiros, no mesmo grupo do agora medalhista olímpico Alison dos Santos, mas não "estourou".

Ao fim de 2019, aos 25 anos, era só a quinta melhor do país, sem perspectivas de ir à Olimpíada de Tóquio, então programada para o ano seguinte. Foi quando veio o convite para treinar rúgbi. "Meu treinador, o Felipe Siqueira, tem um amigo que trabalha no NAR (Núcleo de Alto Rendimento) e que conhecia o técnico e o preparador da seleção de rúgbi da época. Ele disse que a seleção precisava de umas meninas rápidas, e se não tinha ninguém para apresentar", conta Gabriela.

Felipe, hoje um treinador medalhista olímpico graças ao trabalho com Piu, perguntou se Gabriela não teria interesse. Seriam três meses, coincidindo com as férias da temporada do atletismo. Em outubro de 2019, foi pela primeira vez se juntar à seleção permanente de rúgbi que treina no NAR, um centro de treinamento bancado pelo Instituto Península em um terreno da Prefeitura de São Paulo em Santo Amaro.

"Eu tinha parado de evoluir no atletismo, dado uma estagnada, e resolvi ver no que dava. Quando eu ainda morava no Rio, um menino que treinava comigo de vez em quando jogava rúgbi pelo Guanabara, então eu conhecia um pouquinho do esporte por causa dele. Também já tinha visto a Thalia e a Bianca (pontas da seleção) porque, às vezes, apareciam vídeos dela no Instagram, mas só", admite a jogadora, que, por ser rápida, foi escalada para jogar como ponta —a atleta que joga mais próxima da linha lateral e tem a função de concluir as jogadas.

Desde então, tudo está sendo um aprendizado. "Para mim, o maior problema é o contato. O rúgbi tem bastante contato e no atletismo não tinha isso. Eu sou alta mas não sou forte, então, é difícil. Mas estou pegando o jeito", reconhece.

Um ano depois de treinar rúgbi pela primeira vez, Gabriela fez sua estreia no esporte já jogando pela seleção no Campeonato Sul-Americano vencido pelo Brasil em novembro de 2020. Com um ano e meio de treinos, foi convocada para ser reserva do elenco inscrito nos Jogos de Tóquio. Chegou a ir ao Japão, mas, como ninguém precisou ser cortada, voltou para casa sem nem entrar na vila olímpica.

"Faltou só um pouquinho... Foi uma sensação muito louca. Ir como a 14ª jogadora é o mais perto que eu consegui chegar até agora de ir para a Olimpíada, mas, ao mesmo tempo, é triste porque é tão perto, tão perto. Não tinha nem dois anos de rúgbi ainda e já estava numa conquista desse tamanho", avalia.

Depois de também jogar o Sul-Americano do ano passado e o campeonato nacional pelo Charrua, do Rio Grande do Sul, por influência da amiga Andressa, uma das colegas com quem divide uma república, Gabriela estreou na World Series, espécie de circuito mundial, no fim do ano passado. Em seis jogos, todos começando como reserva, fez 15 pontos, com três tries.

Com ela no elenco, o Brasil conquistou uma inédita sexta colocação na primeira de duas etapas jogadas em Dubai, no fim de novembro e começo de dezembro, conquistando vitórias sobre Grã-Bretanha, Espanha e Estados Unidos. Um feito e tanto para quem, em 12 participações depois da Rio-2016 em etapas do circuito, acumulava seis últimos lugares, cinco penúltimos e um oitavo lugar.

Nesta sexta-feira começa uma nova etapa em Málaga, na Espanha. O Brasil faz seu primeiro jogo às 5h (de Brasília) contra a Rússia. Depois, encara a França. No sábado, fecha a primeira fase contra a Inglaterra. No fim de semana que vem, a quarta etapa da World Series será em Sevilha, também na Espanha.