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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O Flamengo e sua crise encomendada

 Paulo Sousa, técnico do Flamengo, durante partida contra o Goiás no Maracanã pelo campeonato Brasileiro A 2022 - Thiago Ribeiro/AGIF
Paulo Sousa, técnico do Flamengo, durante partida contra o Goiás no Maracanã pelo campeonato Brasileiro A 2022 Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

21/05/2022 19h31

O Flamengo fez o suficiente para ganhar do Goias no Maracanã e, quem sabe, dar um passo para fora do ambiente da crise instalada. A torcida deu seu show ainda que algumas vaias tenham conseguido atravessar a cantoria.

Vai ser dessa vez que o time começa a escapar desse destino estranhamente conturbado?

A crise flamenguista se aprofunda há muitos meses e, quando parece que vai se resolver, encontra novos caminhos para seguir existindo.

Campeão nacional, campeão da América, jogando o fino, elenco estrelar? como exatamente essa crise chegou ao nível em que está?

A resposta não é simples, mas entender a causa pode esclarecer algumas coisas.

É bastante difícil defender a cartolagem do futebol brasileiro: ela é ruim, conservadora, tradicionalista e autoritária. Há os dirigentes que escapam desse lugar-comum, mas são poucos.

A questão é que algumas cartolagens conseguem ser ainda mais horrorosas do que a média. A do Flamengo parece se encaixar nesse horror. Raros serão os capazes de acreditar que a atual crise em que o Flamengo se meteu não tem a assinatura de seus executivos.

Jorge Jesus passou. Veio, fez o impossível, e vazou. Mas deixou um rastro. Houvesse na Gávea uma diretoria interessada e empenhada, os métodos de Jesus teriam sido perpetuados de alguma forma. O elenco precisaria ser renovado? Sem dúvida, ensina meu amigo, o genial repórter Lucio de Castro. Gerson deveria ter sido negociado? Eu não consigo entender por que vende-se um jogador essencial para, em seguida, sair comprando outros.

"Vende por questões de orçamento", argumentariam alguns. Mas se vende e sai comprando peças de reposição, qual a lógica? Gerson era o centro de gravidade desse time. A renovação deveria ter sido feita em sua órbita e não ao custo de sua ausência.

O Flamengo tem no Ninho do Urubu um manancial de futuros craques. Poderiam vir do Ninho um, dois, três times inteiros que fossem competitivos e acima da média. Só que, hoje, quando a gente fala em Ninho do Urubu a gente não pensa mais no futuro, mas no passado. Rodolfo Landim não era presidente quando os garotos morreram numa tragédia inominável, mas era o presidente quando o clube regulou as indenizações pelas mortes.

Na época, Landim disse que seria preciso ter o bom senso de não tomar a decisão de sair pagando valores [indenizatórios] que são fora da realidade. Eu argumentaria que fora da realidade é justamente a tragédia que tirou a vida dos jovens atletas.

Essa falta de comando, de decência e de ética se revela em muitas frentes e vem destruindo tudo pela Gávea. Não saberemos se Paulo Sousa poderia ter sido um grande treinador para o Flamengo. Não houve um dia de tranquilidade para que ele trabalhasse. Ele foi jogado numa batalha sem armas e trincheiras.

A crise desse gigante chamado Flamengo foi, portanto, planejada como uma encomenda. E coordenada por uma diretoria que, fora toda a confusão, lambe as botas de um presidente que já disse que negros devem ser pesados em arroba, que algumas mulheres merecem ser estupradas, que melhor filho morto do que filho gay, que celebra torturador e que afunda o Brasil numa miséria que parece não ter fim.

A menos que a imensa torcida do Flamengo seja composta apenas por homens feitos à imagem e semelhança de Landim e de Bolsonaro, ela deveria estar mais furiosa com essa aliança indefensável do que com as falhas de Hugo.

O tamanho do Flamengo pode ser medido também pelo tamanho de suas crises, mas nunca pelo tamanho de sua diretoria.