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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Corinthians: o melhor ainda está por vir

Torcida do Corinthians comparece em grande número contra a Portuguesa-RJ - Ettore Chiereguini/AGIF
Torcida do Corinthians comparece em grande número contra a Portuguesa-RJ Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

12/05/2022 11h27

Quando o jogo entre Corinthians e Portuguesa do Rio começou nessa quarta-feira, 11 de maio, eu estava quase dormindo. O sono tinha batido cedo, o jogo anterior - entre Juazeirense e Palmeiras - apenas acentuou a vontade de fechar os olhos e dormir e eu achei que não aguentaria assistir à partida do meu time. Mas bastaram cinco minutos para eu despertar.

O efeito foi o de uma boa xícara de café; um café forte, intenso e saboroso. Fiquei alerta e empolgada. A princípio, a escalação não fazia sentido - até fazer.

Gustavo Mosquito entrou como ala, Fabio Santos num papel duplo de terceiro zagueiro e lateral; do meio de campo pra frente um time que, numa linguagem que vai precisar se renovar, chamamos de reserva: Junior Moraes, Adson, Giovani, Roni.

Parecia que seria uma confusão. E foi tudo menos isso.

A pressão foi tanta que o gol saiu rapidamente. Depois do um a zero a favor, quem acompanha os times recentes do Corinthians sabe perfeitamente que o time recuava e começava a ser pressionado. Não importava o tamanho do rival: era sempre assim. Foi assim a despeito do nome do treinador. Foi assim durante muito tempo.

Não contra a Portuguesa. O time fez um e buscou o segundo como se estivesse perdendo uma final. Fez o segundo e quis o terceiro. Muita movimentação, muito dinamismo, muita intensidade, muita força, muito sabor.

"Ganhar tem que se tornar um hábito", disse Vitor Pereira na coletiva. "O empate tem que nos deixar sem dormir", completou.

Sim, seria lindo se pudesse ser desse jeito. Nós, que torcemos para esse escudo, queremos. Mas a vitória é contingência. Tudo o que podemos solicitar é entrega, intensidade, dinamismo. Não temos como saber quando um Amarilla apitará o jogo, ou quando o VAR vai deixar de fazer o seu trabalho, ou quando os mistérios da vida farão bolas estourarem a trave e goleiros adversários encarnarão Gordon Banks. Sobre isso não temos controle.

O único controle é pedir que a identidade do clube seja respeitada: garra, intensidade, entrega, paixão.

Se houver isso, o torcedor e a torcedora dormirão tranquilamente.

Parece simples, mas longe disso. Porque esses valores só existem quando o grupo está junto, coeso, feliz, seguro, livre, confiante e movido por um mesmo ideal. E isso é o treinador e sua equipe que constroem. Técnica nunca foi o problema nesse Brasil. E nunca foi um problema no Corinthians, clube que forma, na base, dezenas de jogadores de excelência num único ciclo - como Vitor Pereira está percebendo.

Parece que um Corinthians que respeita sua identidade e sua cultura futebolística está nascendo. Se for isso mesmo, o melhor ainda está por vir.