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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Luxa, um dos maiores, faz 70

Vanderlei Luxemburgo após a conquista do título paulista pelo Palmeiras - Cesar Greco
Vanderlei Luxemburgo após a conquista do título paulista pelo Palmeiras Imagem: Cesar Greco
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

10/05/2022 13h35

Eu estava começando a comentar futebol, lá por 2008, quando, numa tarde de segunda-feira, meu celular tocou. Atendi e a voz do outro lado disse: "Oi, Milly. Aqui é o Vanderlei Luxemburgo. Eu ri e respondi: Cury, para de bobagem. Tive certeza que era uma peça do Sergio Cury, um querido amor palmeirense, que estava imitando o Luxa, treinador de quem ele era fã. A voz disse: não sou o Cury, sou o Luxemburgo.

Teimosa, eu repeti: Cury, eu tô sem tempo! Para com essa brincadeira.

Depois de ficarmos assim por mais ou menos dois minutos, a voz me convenceu de que não era o Cury, mas mandou um abraço para o meu amigo.

Era mesmo o Luxa, que me ligava para parabenizar por um comentário que eu tinha feito no dia anterior durante um jogo que já não me lembro mais qual era. Ao contrário de meu amigo Vitão Guedes, minha memória não merece vivas.

Foi a primeira e única vez que alguém do meio me ligou para elogiar. No mais, já recebi muitos telefonemas de xingamento e algumas visitas também: valentões que montavam guarda na porta de minha casa para, ao me ver saindo ou chegando, berrarem ofensas.

Depois desse dia, lembro de ter encontrado com Luxa num hotel (talvez em Rio Preto ou Ribeirão) e de ter passado algum tempo com ele e outros jornalistas num bar que ficava no hall. Era um sábado, o time dele jogaria no dia seguinte, e ele estava ali num fim de tarde papeando com a gente.

Eu era a única mulher no grupo que devia ter umas dez pessoas e Luxa me tratou com um tipo de respeito que deveria ser apenas natural, mas que, de tão raro nesse ambiente, precisa ser elogiado. Reconhecia meus comentários, dialogava sem ser nem paternalista, nem irônico, nem debochado. Não tentou "me explicar" nada a respeito do jogo, não me usou para fazer comentários que pudessem ser aplaudidos pelos outros homens a nossa volta.

Lembro de ter ido dormir me sentindo acolhida e honrada em meu conhecimento e trabalho. Um sentimento que as mulheres que atuam nessa indústria reconhecerão como bastante raro.

Nessa tarde de sábado, ele disse que já tinha treinado muitos jogadores de inteligência rara, mas que Alex - que fez história com ele naquele Cruzeiro magnífico - tinha sido o maior deles. Que, se pudesse, levaria Alex onde fosse. Bem humorado, falou sobre como montou aquele Cruzeiro multi-campeão, de por que deixou Alex solto para criar e de como se orgulhava daquele timaço.

Luxemburgo tem esse sobrenome por causa da anarquista Rosa Luxemburgo. O avô, depois de ler um livro dela, colocou o nome de Rosa Luxemburgo na filha, a mãe de Vanderlei. O nome virou sobrenome e as filhas de Luxa carregam a homenagem em suas assinaturas. Um raro caso de treinador com consciência política e social, Luxa é um cara bacana.

Recomendo o podcast em que ele foi entrevistado por Mano Brown: o Mano-a-Mano.

Nesse 10 de maio ele faz 70 anos. O que posso dizer é que se houvesse mais homens como ele, o futebol seria um ambiente justo e igualitário.

Feliz ano novo, professor. Vida longa.