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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Que saudade de você, Corinthians

Jogadores do Corinthians entram no gramado da Neo Química Arena para o duelo diante da Ferroviária - Ettore Chiereguini/AGIF
Jogadores do Corinthians entram no gramado da Neo Química Arena para o duelo diante da Ferroviária Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

26/01/2022 11h23

Eu lembro de estar na arquibancada do Pacaembu numa noite de lua cheia (talvez nem fosse, mas foi assim que o momento ficou marcado em minha memória) ao lado de meu amigo Décio Galina esperando o Corinthians entrar em campo. O estádio não estava cheio, acho que era um Estadual lá por 2012, mas nem disso tenho certeza. O que lembro com clareza foi da nossa conversa antes da bola rolar.

"Você já sentiu saudade do Corinthians?", ele quis saber. Foi a primeira vez que entendi o que sentia nos meses de janeiro. Sim, respondi imediatamente. "Sinto muita saudade do Corinthians. Saudade de de ver o time entrar, de escutar a torcida gritar, de sentar aqui no Paca (como nos referíamos ao estádio) ou na frente de um monitor e grudar os olhos nessa camisa. Sinto muita saudade sim". Décio riu e a partir disso começamos um papo sobre como o sentimento por um time pode soar amalucado para quem não gosta de futebol.

Essa sensação voltou forte na noite de 25 de janeiro quando o Timão entrou em campo depois das férias. Vendo pela TV, quando o time apontou para as câmeras para se enfileirar antes de entrar no gramado, meus olhos marejaram. Não interessa tanto quem está usando a camisa. O que interessa é a camisa. Lá estava ela outra vez. Vamos começar tudo de novo. Mais um ano, mais muitos sonhos.

São esses os sentimentos que pisam em campo no primeiro jogo da temporada. E, com eles, esperanças renovadas.

Para não dizer que não falei do jogo, o que vi em campo foi o Corinthians do segundo semestre de 2021: um time que tem a posse de bola, toca bastante mas se movimenta em baixa intensidade. Muita armação, pouca finalização. Quando o gol não sai e já passamos dos 30 do segundo tempo, vamos de cruzamentos sem fim.

O elenco é muito acima da média, mas seria preciso mais paixão, mais correria, mais emoção. Tem muita gente armando mas pouca gente concluindo. O time joga alargado, os jogadores não se aproximam, não existe o ataque em bloco. É uma equipe que marca bem a saída de bola do adversário, recupera com regularidade, mas a partir daí começa a tocar sem intensidade.

Pontos altos da noite foram William, que jogou o primeiro tempo quase como um ponta direita e estava bem mais solto do que vimos em 2021, Paulinho, que entrou praticamente como um atacante e quase resolveu a parada por mais de uma vez e João Vitor, a cada dia mais seguro e imponente.

É curioso que se fôssemos dar nota para cada um dos jogadores, a média seria altíssima. Todos foram bastante bem. Mas a nota do time seria baixa. Sylvinho tem trabalho pela frente. Se eu pudesse sugerir alguma coisa, pediria mais paixão, menos razão. Mais intensidade, menos "titebilidade".