PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Pelo que luta Novak Djokovic?

Fã leva cartaz com foto de Novak Djokovic enquanto tenista é julgado em Melbourne - EFE
Fã leva cartaz com foto de Novak Djokovic enquanto tenista é julgado em Melbourne Imagem: EFE
Conteúdo exclusivo para assinantes
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

14/01/2022 17h59

E lá vamos nós de novo para mais um capítulo da novela australiana "A Irritante Teimosia de Novak Djokovic".

O tenista sérvio e atual número um do mundo tem chamado para si quase todo o noticiário que envolve o Aberto da Austrália, o primeiro Grand Slam da temporada. Depois de ser detido na imigração por não ter completado o ciclo de vacinação contra Covid, de recorrer judicialmente, de ser liberado e de ter tido outra vez o visto cancelado pelo governo australiano, parece que a defesa do tenista vai entrar com novo recurso nesse sábado, 15 de janeiro, para que ele jogue o torneio.

Se o recurso for aceito, Djokovic deverá ser o único participante a não estar vacinado contra o vírus que há mais de dois anos causa tanto sofrimento e medo no mundo. É um recado claro a respeito de quem é Djokovic: um homem individualista, egocentrado, mimado e infantilizado.

Em entrevista para o portal do britânico Independent, a ex-tenista Martina Navratilova disse: ok, ele não quer se vacinar, mas pelo time, pela comunidade, pelo bem de todos e pelo fim dessa pandemia ele devia engolir sua vontade, voltar para casa e se vacinar. Nas palavras dela: "Novak, suck it up and go home"

Só que, ao que tudo indica, o tenista seguirá lutando pelo que acredita ser o "direito" de não tomar a vacina. Um direito que de direito não tem nada. Não existe o "direito" de contaminar outras pessoas. Não existe o "direito" de colocar seu corpo em circulação sem ter tomado as devidas precauções para não adoecer outros. Não existe a "liberdade" de não se vacinar; o que existe é a liberdade de ser um agente da cura e da superação dessa pandemia que afeta o mundo inteiro há dois anos e que pesa de forma mais cruel sobre vulneráveis - e falo aqui de pessoas e de países.

Pelo que luta Djokovic então? Pela teimosia de ser diferentão? Pelo direito de espalhar ignorância e desinformação? Pela farra macabra de colocar outros em risco? Pela estupidez de não se proteger e de não colaborar com a erradicação da Covid no mundo?

Vacinação é pacto coletivo: ou todos fazemos e nos imunizamos, ou o vírus seguirá seu destino que é o de se transformar e se transformar e se transformar de corpo em corpo enquanto a gente segue nessa corrida maluca para tentar interromper as mutações. Você não se vacina só por você; você se vacina pelos demais, pelos mais vulneráveis, pelo fim de uma epidemia ou de uma pandemia. Vacinação é ato de amor, de solidariedade, de afeto. É a consciência de que estamos nisso juntos, somos viajantes em uma mesma nave que voa pelo Cosmos. É ter a noção de que não existimos sozinhos e de que a saída é coletiva e não individual

A história das vacinas no mundo é uma história de sucesso e de conquistas. Graças a elas tantas doenças que antes matavam puderam ser erradicadas. Só mesmo uma época que resgata a ideia de que a Terra é plana poderia trazer à tona a figura do negacionista da vacina.

E é sempre bom lembrar que não existe vacinação experimental. A menos que você tenha se voluntariado para participar dos testes de uma nova vacina você não está tomando uma vacina experimental. Quando a vacina entra pra jogo e começa a ser distribuída ela não é mais um experimento.

"Ah, mas não sabemos de seus efeitos a longo prazo". Pois é, meu caro, se você perdeu os últimos dois anos deixa eu te contar que desde 2020 estamos enfrentando uma pandemia que nos obrigou a correr para fabricar uma vacina, que foi devidamente testada antes de ser colocada na roda da imunização. Só um mochileiro das galáxias que venha de um futuro distante pode trazer essa tal informação. O que sabemos é que, aqui e agora, existe um vírus que tem a capacidade de nos matar e que fomos suficientemente bons para criar, testar e disponibilizar em pouco mais de um ano uma vacina que é eficaz contra ele. Eu diria que se você comer açúcar, toma refrigerante, fuma ou até mesmo se você é todo atento e faz uma dieta natural repleta de frutas e verduras (que são plantadas com agrotóxicos) essa preocupação é vã.

Agora, se você quer entrar numa batalha bacana eu tenho uma dica: pela quebra das patentes que fazem os grandes laboratórios lucrarem ziguilhões durante uma tragédia mundial e pela imediata distribuição da vacina aos países mais pobres.

Tudo isso eu escrevi para dizer o seguinte: Novak Djokovic é um gênio da quadra e um completo cretino na vida. A menos que ele reveja suas posições é assim que entrará para a história.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL