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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Deixem a gente sonhar

Nascer do sol no cume do Aconcágua, em janeiro de 2016 - Arquivo pessoal
Nascer do sol no cume do Aconcágua, em janeiro de 2016 Imagem: Arquivo pessoal
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

07/01/2022 19h48

O ano que começou há uma semana promete ser um dos mais definitivos de nossas vidas. Teremos eleições, Copa do Mundo, Carnaval em outubro ou novembro (a depender do resultado das eleições) e testemunharemos o fim de uma pandemia que terá durado quase três anos. Dois mil e vinte e dois tem tudo para ser inesquecível pelos melhores motivos.

Pensando assim, por que não sonhar com campeonatos de jogos ofensivos e criativos, com esquemas táticos que se articulem para além de sistemas defensivos rígidos e tediosos, com estádios cheios, com ingressos a preços populares, com zero demonstrações de racismo e de homofobia em nossos campos.

Que seja ano para a gente enxergar o Brasil que pulsa nas frestas, como ensina o professor Luiz Antonio Simas. Ano para que o drible volte ao jogo, para que os times se organizem jogando também pelas pontas, para que a alegria retorne aos templos do futebol.

Que não tenhamos que escutar narradores, repórteres e comentaristas passando pano para jogadores acusados de violência sexual, que o VAR não interfira muito e que o futebol feminino siga colocando toda a sua potência e exuberância para fora.

Que quando a pandemia passar possamos honrar os nomes daqueles que partiram, que consigamos atravessar tanta dor e tanto luto para ter forças de reconstruir um país inteiro, a começar pela recuperação dos mais básicos direitos civis. Que as frestas explodam em música e poesia e enterrem de vez o Brasil racista, machista, conservador, careta, covarde e patriarcal.

Se tudo der certo, no final desse ano que começa agora estaremos vivendo num país que terá voltado a sonhar. E a chance de sonhar, eclipsada desde 2016, já é bastante coisa.