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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly - Caso Fabio confirma: quem vê gestão, não vê coração

Fábio comemora gol do Cruzeiro sobre o Corinthians na final da Copa do Brasil - REUTERS/Ueslei Marcelino
Fábio comemora gol do Cruzeiro sobre o Corinthians na final da Copa do Brasil Imagem: REUTERS/Ueslei Marcelino
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

06/01/2022 17h37

Privatizaram o Cruzeiro e a princípio a torcida gostou. Não é difícil gostar se tudo e todos a sua volta falam bem das SAFs. Dizem que é o amadurecimento das administrações. Que agora sim a coisa vai ficar séria. Que agora vai.

Eu não sou desse clube. Eu acho que times são instituições que deveriam ser associações sem fins lucrativos e que o destino de todas as coisas relacionadas a um clube deveria ser tomado pelos únicos que podem se dizer donos de uma camisa: a torcida.

Não me entra na cabeça como podem achar que a solução para as administrações dos clubes seja mais concentração de poder em vez de menos concentração de poder. São essas as mesmas pessoas que dizem amar a democracia mas aceitam passivamente transformar o time em uma autocracia: um dono, um poder decisivo, um homem forte. Dali saem as ordens.

A bem da verdade, aceitamos viver assim sem reclamar. O que são as corporações senão autocracias? Um pequeno grupo de homens decidindo a vida de dezenas de milhares. Por que falamos tanto em democracia e não lutamos para que ela chegue também ao ambiente do trabalho?

Sim, do jeito que está não está bom para o futebol; é preciso mudar. Mas por que a mudança deve concentrar poder em vez de diluí-lo? Por que se aprofundar por essa estrada de caprichosos poderes, de magnatas cheios de vaidade que não resolve nada há décadas?

Quando a palavra gestão passou a ocupar todas as dimensões de nossas vidas, da política ao futebol passando pela forma como orientamos nossas próprias existências, tomamos o caminho errado.

O que é gestão? Primeiro, é entregar tudo a um "gerente". Gente, a palavra pode até ser bonitinha, mas ela diz apenas isso: coloca o gerente no poder.

Para fazer o quê? Planilhas. Custo benefício. Eficiência. É o que vale no mundo dos negócios.

Tanto faz que Fabio tenha se misturado a esse time de um jeito que poucos jogadores fizeram. O gerente não quer saber de afetos. Isso não pode ser contabilizado. Dissequem o custo do Fabio, coloquem numa planilha, tracem metas, deixem um computador fazer os cálculos para ver se devemos ou não seguir com ele. Não, não devemos. Próximo.

Dane-se a paixão, o negócio agora é gestão.

Esse é só o começo, mas o final a gente sabe: os mesmos de sempre seguirão acumulando fortunas, mandando, fazendo e desfazendo. Claro que se seu time for comprado por um magnata disposto a despejar toneladas de dinheiro que ele acumulou sabe deus como, títulos virão. Mas é disso que se trata o futebol? Títulos? Você ama seu time por causa dos canecos? Ou será que sua paixão está fincada em outras bases?

Tchau, Fabio. Você certamente não merecia esse desligamento. Tomara que um dia você consiga ter a despedida que a torcida gostaria de te dar.