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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly Lacombe: Felipe Andreoli e o passado que não se pode apagar

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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

31/10/2021 13h34

Há algumas semanas recebi uma carta da diretoria do Fortaleza E.C e um dos trechos dizia o seguinte: "A história passada não se muda. Ela é o que é. Mas dela a gente tira lições para que a história futura, essa sim, possa ser escrita da melhor forma". O pessoal do Fortaleza estava falando da experiência da Série C e de tudo o que aconteceu desde então. É um jeito maduro, potente e bonito de olharmos para trás - e também de explicar o caminho trilhado rumo ao sucesso.

Porque não há como a gente visitar o passado sem saber que nele existe uma tonelada de coisas que fizemos e das quais nos arrependemos e nos envergonhamos. Mas uma atitude é fazer essa viagem no tempo e tentar esquecer o que vêm à memória, e outra é voltar do passado com a certeza de que tudo o que aconteceu, dos mais retumbantes fracassos e pisadas de bola, às mais poderosas conquistas, compõem o caldo do que somos hoje. Não se joga fora nada do que fomos e fizemos se a ideia é nos tornamos melhores.

A realidade é que somos criados para sermos racistas, machistas e LGBTfóbicos. É essa a estrutura política que nos socializa desde pequenos - mesmo que nosso núcleo familiar seja formado por pessoas conscientes e que nos eduquem para que escapemos desse destino. Ainda assim, o que há a nossa volta é a ideia de que existe um sexo correto, um gênero correto, uma performance de gênero correta, uma cor da pele correta e uma sexualidade correta.

E o correto é ser homem, branco e heterossexual. Ser esse certo homem envolve não chorar, não se deixar atravessar por sentimentos, aguentar o mundo nas costas, não se curvar jamais, não levar desaforo pra casa, não se deitar com outro homem. Esse é o comportamento que se espera de um "homem de verdade". A esse sujeito homem tudo se compara e se ajusta - e a ele devemos temer e obedecer. À imagem e semelhança desse homem, construímos a ideia de um Deus muito temido, vingativo e autoritário.

É, portanto, bastante encorajador quando a gente encontra um homem branco e heterossexual que está tentando se desfazer das ficções em torno das quais foi moldado. Parece ser o caso do apresentador Felipe Andreoli, que semana passada fez críticas públicas e pertinentes ao comportamento homofóbico de Mauricio Souza.

Para mostrar que Andreoli estava sendo hipócrita, a esgotosfera começou a repostar vídeos e comportamentos preconceituosos do apresentador, feitos num passado recente. Claro que quem foi buscar essas postagens concorda com o Andreoli antigo e, enfurecido com a mudança no discurso, resolveu trazer de volta o passado como se fôssemos sempre, e para o resto da vida, aquilo que um dia já fomos.

Olhar para trás e sentir vergonha do que éramos é sinal de coragem e de beleza. A gente é a história das nossas cicatrizes e saber que elas estão ali para nos lembrar da travessia é sempre importante. Quem não acredita que as pessoas podem mudar não tem por que lutar. Quem acha que está, ele mesmo, ela mesma, livre de preconceitos, ainda não entendeu o caráter estrutural do machismo, do racismo e da LGBTfobia. Nossa tarefa é a de, todos os dias, olharmos para os preconceitos que nos habitam e ir desmontando, decodificando e destruindo cada um deles. E, no caminho, celebrar nossas transformações e as transformações daqueles e daquelas que estão na viagem com a gente.

Um tipo de homem está morrendo e, quando isso acontecer, não apenas todas nós estaremos salvas, mas todos vocês também. Porque o machismo que a cada oito minutos mata e destrói corpos femininos é o mesmo que silencia, apequena, acovarda e enjaula homens em seus edifícios erguidos sobre tijolos de insensibilidade de um tipo de fraqueza que precisa se instrumentalizar com armas para não se deixar revelar.

O passado a gente não apaga nem esquece; o passado a gente honra sabendo que reaprender e melhorar é o único caminho possível.