PUBLICIDADE
Topo

Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Uma declaração de amor ao ponta

 Pelé (e), do Santos para diante da marcação do jogador Cafuringa (Moacir Fernandes), do Fluminense, no jogo (empate em 0 a 0) válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, realizado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro - ARQUIVO/Estadão Conteúdo
Pelé (e), do Santos para diante da marcação do jogador Cafuringa (Moacir Fernandes), do Fluminense, no jogo (empate em 0 a 0) válido pelo Torneio Roberto Gomes Pedrosa, realizado no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro Imagem: ARQUIVO/Estadão Conteúdo
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

06/10/2021 10h30

Quando eu me apaixonei pelo futebol, lá pelos cinco anos de idade, eu primeiro me apaixonei pelos pontas. Mais especificamente, me apaixonei por Cafuringa. Meu pai e eu íamos aos jogos do Fluminense no Maracanã e toda vez que Cafuringa entrava em campo eu sabia que veria dribles e jogadas rápidas e era isso o que me encantava.

Anos depois, me apaixonaria por Zé Sergio, o ponta esquerda são-paulino que era puro encantamento correndo e driblando. Mas aí o futebol foi mudando e o ponta foi morrendo. Aqueles cantos do campo passaram a ser ocupados mais raramente e deu-se o nome de atacante a qualquer jogador que atuasse mais ofensivamente.

Os laterais, dependendo do esquema tático, foram instruídos a chegar à linha e fundo, mas com uma outra proposta: o drible deixou de existir e a única intenção era ir até a linha de fundo para cruzar. Pegamos o básico do futebol inglês e instalamos em nossos times. O drible virou uma ofensa. Para que driblar se podemos passar, cruzar, lançar? Houve um completo desgarrinchamento do nosso jogo - e o ponta sumiu.

Mas eis que, aqui e ali, há lampejos desse jogador pelos campos do Brasil. O que seria o flamenguista Michael se não um ponta? E os corintianos Gabriel Pereira e Gustavo Mosquito? Tem sido muito bacana ver esses caras jogando e, com eles, o sonho do ponta renascer.

O futebol brasileiro é o futebol do drible. Foi aqui que o fundamento surgiu, é o que fazemos de melhor. Mas a sociedade da performance e da objetividade tentou matar esse que é o maior jogo de cintura do esporte. O que é o drible a não ser uma enganação legítima? Um "você pensa que vou pra lá, mas vou pra cá", uma ocupação criativa e original do espaço curto? Drible é poesia, é música, é o que somos dentro de um campo de jogo - ou o que deveríamos ser. É Garrincha, é Cafuringa, Zé Sergio, Gabriel Pereira, Michael.

Que possamos nos reconciliar com os pontas e voltar a chamá-los pelo nome correto. O jogo só terá a ganhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL