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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: CBF trabalha para diminuir o valor do futebol e da seleção

Torcedores do Vasco da Gama em partida contra o Goiás na Série B, em outubro de 2021 - Rafael Ribeiro / Vasco
Torcedores do Vasco da Gama em partida contra o Goiás na Série B, em outubro de 2021 Imagem: Rafael Ribeiro / Vasco
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

05/10/2021 15h15

A CBF não está preocupada com você ou comigo, muito menos se importa com o que sentimos pela seleção brasileira de futebol masculino. A CBF passa por cima de emoções e de afetos porque o barato dela é outro. A CBF é uma empresa e, como qualquer empresa, o que ela quer é lucrar. Para isso, só deve deferência a uma coisa: vossa excelência, o patrocinador.

É para o patrocinador que ela se explica, em nome dele que ela atua, para ele ela joga. O lucro acima de tudo, o acúmulo acima de todos. Não há, assim, nenhuma preocupação em fazer o futebol ser maior ou melhor ou mais justo ou mais bonito. Em time que está ganhando não se mexe.

E o que realmente importa para quem ganha muito dinheiro nesse mundo? Saber como administrar a grana de modo a pagar a menor quantidade possível de impostos. Só isso. Há, para tanto, escritórios de advocacia especializados em fazer rico pagar menos imposto. Milionários pelo planeta inteiro gastam um tempo enorme com esse tipo de malabarismo fiscal e contábil. Pior: gastam muito dinheiro mas não ligam porque o fundamental é dar um jeito de não pagar aquele imposto.

Se o dinheiro que ia para o imposto vai para um escritório de advocacia, menos pior. Desse modo pelo menos os ricos não fazem papel de trouxa. Trouxa mesmo são aqueles que acreditam em maluquices como o espaço do "comum", o lugar do compartilhamento, da solidariedade, da construção de uma sociedade melhor. Trouxa é quem acha que imposto serve a um bem coletivo - assim como o futebol. Trabalhar em nome de uma existência mais justa para todos e todas não está na lista de prioridade dos grandes negócios desse mundo, e o futebol é um dos maiores negócios do mundo.

O jogo está devidamente infectado pela lógica empresarial de vida, essa que manda com que tudo e todos passem a atuar sob a chave econômica, sendo o lucro o único destino moral possível para qualquer vivente. O recado é "mais", sempre "mais". Nunca parar de acumular.

Não há debates sobre o papel social do futebol, o poder que o jogo tem sobre nossas subjetividades, a potência de fazer afetos circularem, a capacidade que o futebol tem para unir e ensinar. Não se debate o fato de apenas uma pequenina parte dos atletas profissionais conseguirem viver decentemente do futebol, não se fala da pobreza dos campeonatos periféricos, da falta de estrutura que o Brasil ainda tem para a prática desse esporte nacional.

Não existe nenhuma preocupação em jogar um futebol que represente nossa cultura, que empolgue, que nos faça vibrar e nos ofereça alegrias e emoções. Estamos no mundo da razão, das coisas que podem ser medidas e quantificadas. Tudo o que realmente importa acontece dentro de uma planilha e não dentro de um campo. A relação não é a dos afetos, mas a do custo benefício.

E daí que essa seleção masculina jogue um futebol entediante e acovardado? E daí se o torcedor e a torcedora já não se empolgam tanto com a seleção? E daí que o Flamengo vai ser prejudicado no Brasileirão? E daí que a maior torcida do Brasil vá nutrir uma raiva danada pela seleção? E daí que teremos que ter jogos a cada dois dias para que o Campeonato acabe ainda esse ano? Recentemente aprovamos uma reforma trabalhista para mostrar justamente isso: quem quer trabalhar precisa se esforçar. Suar. Se dedicar às exigências do patrão que, afinal, é aquele a quem você deve o emprego. Exaustão? Saúde mental? Ah, não me venha com mimimi.

A CBF não percebe que seu único patrimônio somos nós, os torcedores e as torcedoras. E tudo bem porque ela estará a salvo até o dia em que que nós mesmos entenderemos essa verdade: somos a única riqueza do futebol.

Deveríamos ser tratados como são tratados os reis e as rainhas ou, ainda mais do que isso: deveríamos ser tratados como são tratados os patrocinadores. Mas nesse mundo capitalista todas as lógicas estão invertidas e o grande segredo desse sistema - uma maestria, isso sim - é o de que ele nos convence a lutar por políticas econômicas e por valores que, em pouco tempo, acabarão nos destruindo.

Essa seleção, infelizmente, já não me comove mais. Vejo os jogos por dever de ofício, mas não torço, não vibro, não ligo. E vocês?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL