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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Liberdade de expressão não é liberdade de opressão

Jogadores de Cruzeiro e CSA bateram boca e trocaram empurrões depois da derrota do time mineiro, na Arena Independência, pela Série B - VIVIANE MOREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
Jogadores de Cruzeiro e CSA bateram boca e trocaram empurrões depois da derrota do time mineiro, na Arena Independência, pela Série B Imagem: VIVIANE MOREIRA/ESTADÃO CONTEÚDO
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

27/09/2021 13h02

Pela série B do brasileiro masculino de futebol, o CSA ganhou de virada do Cruzeiro durante o fim de semana, num jogo tumultuado que no final teve pancadaria e uma intervenção desastrosa da PM. Mas o time alagoano, que poderia apenas ter celebrado a suada vitória, conseguiu chafurdar em lama moral depois da partida ao escrever o seguinte tuíte:

"Ah! Que isso? Elas estão descontroladas Ah! Que isso? Elas estão descontroladas Ela sobe, ela desce, ela dá uma rodada Elas estão descontroladas Ela sobe, ela desce, ela dá uma rodada Elas estão descontroladas".

É lastimável que tenhamos que, a essa altura do que se sabe sobre a violência contra LGBTQs e mulheres, parar e falar da violência contida nesse post.

O curioso é que muitos foram capazes de enxergar de forma bastante rápida a homofobia da postagem - mas não a misoginia.

O uso do feminino como território de fraqueza e de vulnerabilidade é misoginia. E a misoginia mata. Mata todos os dias. Mata mulheres cis e trans, mata travestis, mata o feminino em você, na gente e no mundo.

O mesmo CSA que teve que sair correndo da ação violenta da PM depois da partida é incapaz de enxergar como a postagem misógina e LGBTFóbica que cometeu dá às mãos à opressão e à repressão que, no fim dessa linha, é feita da mesma substância que legitima as ações violentas, racistas e machistas de nossas polícias.

Somos o país que mais mata LGBTQs no mundo. Somos uma sociedade que estupra uma mulher a cada oito minutos e que mata uma mulher a cada duas horas. Os dados de violência contra tudo o que contenha características femininas são assombrosos e postagens como essa colaboram para que esses números sigam aumentando na medida em que reforçam e legitimam a diminuição do feminino.

Preciso lembrar que elegemos um candidato que disse, em vídeo, a seguinte frase a uma colega de trabalho: "só não te estupro porque você não merece". Há que se ter alguma ideia das dimensões de violência que essa declaração contém.

Palavras importam. Palavras têm poder. Palavras podem matar, mas também podem salvar. Usar as palavras corretas, chamar as coisas pelos nomes que elas têm, ajuda a gente a entender o que está acontecendo - seja em nossas vidas privadas ou no ambiente social - e como sair disso. Linguagem é lugar de luta, como ensina bell hooks.

Com a vitória sobre o Cruzeiro, o CSA foi para a sétima colocação na tabela. Se tivesse no time a categoria de uma Marta, de uma Victoria, de uma Cristiane quem sabe poderia estar entre os quatro primeiros e, talvez, não cair na tentação de cometer misoginia. O que o CSA deve chamar de livre expressão e de coragem está muito mais perto da opressão e da covardia. Acorda, CSA: é preciso melhorar - e muito - para chegar a ser os homens que vocês acham que são. Escrever post misógino é fácil. Difícil é se colocar nesse mundo em defesa dos que estão sendo oprimidos, assassinados, eliminados, diminuídos. Numa sociedade carregada de preconceitos e dominações, coragem não é odiar; coragem é amar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL