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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Milly: Anvisa, miga: por que no campo, por que ao vivo, por que a cena?

Agentes da Anvisa interrompem partida entre Brasil e Argentina - Alexandre Schneider/Getty Images
Agentes da Anvisa interrompem partida entre Brasil e Argentina Imagem: Alexandre Schneider/Getty Images
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

06/09/2021 16h01

O episódio, já histórico, da interrupção de um dos maiores clássicos do futebol mundial por agentes representando a agência nacional de vigilância sanitária, a Anvisa, tem mais perguntas do que respostas. O que se sabe de fato: dada a total falta de manifestação oficial da Anvisa em eventos como Motociatas, Copa América, aglomerações de todos os tipos, festas, baladas etc, a gente pode supor que a Agência sanitária não está lá muito preocupada em nos salvar dessa pandemia.

Mais um fato perturbador: outro dia mesmo o diretor da Agência em questão estava desfilando todo pimpão ao lado do presidente da República - sem usar nenhuma máscara - durante uma dessas manifestações conservadoras.

Tudo isso estabelecido como verdade, temos que nos perguntar por que a Anvisa ontem resolveu trabalhar a "nosso favor"?

Está errada a Anvisa de tomar medidas tão drásticas quanto a tomada durante o jogo do Brasil contra a Argentina? Como diz o meme, errada não tá. Mas por que então, querida Anvisa, estamos aqui há quase dois anos jogados a nossa própria sorte, comandados por um lunático que faz campanha de remédios ineficazes, defende a liberdade de não usar máscara, apoia aglomerações sem que você tenha se manifestado de forma contundente?

Por que os argentinos precisam fazer quarentena mas os brasileiros vindos dos mesmos destinos não precisam?

E já que estamos nesse tema, por que Reino Unido, Africa do Sul e Índia são os países sobre os quais restrições foram impostas sendo que as variantes que neles supostamente se originaram (Alpha, Beta, Delta, pela ordem) já estão espalhadas pelo mundo quase inteirinho? Que tipo de lógica é essa? Talvez haja uma explicação que esteja me escapando.

Outra pergunta: Foi divertido para quem fazer aquele show ao vivo interrompendo importante evento da Rede Globo? Quem ganha com isso? O que ganha quem ganha?

Estamos todos sendo convidados a colocar a quinta série pra jogo, é verdade. E o que aconteceu no campo talvez tenha sido apenas isso: um líder autoritário brincando de interromper evento de largo alcance e engajamento.

Mais uma vez, palmas para o narrador Milton Leite, que fazia o jogo pelo Sportv, entendeu ainda no ao vivo o que estava acontecendo e disse muitas coisas que precisavam ser ditas. Eu levei quase 24 horas, e tive que recorrer a ajuda e à genialidade de Mauricio Svartman, amigo a quem sempre recorro em momentos nos quais tomar partido fica difícil porque tudo parece embaralhado e confuso, para começar a clarear as ideias.

O que aconteceu ontem é bizarro e, até aqui, inexplicável. Mas, como disse meu amigo: "Entre quatro argentinos errados e um Bolsonaro mais ou menos certo, fico do lado dos quatro argentinos errados".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL