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OPINIÃO

A Olimpíada mais enxerecada da história

Milly Lacombe

Colunista do UOL

26/07/2021 20h51

Quem está de alguma forma ligado na Olimpíada de Toquio já percebeu que as mulheres estão fazendo um barulho inédito, dentro e fora dos Jogos.

Dentro, vem das mulheres algumas das mais contundentes manifestações sócio-políticas, que até aqui envolveram a luta por usar uniformes confortáveis e que não necessariamente sirvam mais ao desejo hétero-normativo masculino do que à comodidade, apoio aberto aos direitos das populações originárias, dos movimentos negros e da comunidade LGBTQ.

Fora dos tablados, quadras, campos, ginásios e piscinas, embora o contingente de jornalistas ainda seja majoritariamente masculino, temos pela primeira vez na nossa história mulheres narrando e comentando competições variadas, o futebol entre elas.

E, não por acaso, veio da boca da comentarista de Skate do Sportv, Karen Jonz, o verbo que talvez seja o definidor dessa edição olímpica: xerecar. Ao testemunhar a queda da competidora com as pernas abertas sobre o corrimão, Jonz disse que a atleta tinha xerecado, e, diante do silêncio de seus companheiros de estúdio que ou não entenderam ou ficaram levemente constrangidos, ela explicou que cair daquele jeito doia demais.

Xerecar, ao contrário do que possa parecer de imediato, não precisa ser gesto que envolva a proprietária de uma buceta (se você se chocou ao ler aqui a palavra, mas não se choca quando lê, por exemplo, "pau" temos aí um detector de preconceito. Nesse caso, não é preciso se assustar ou se recriminar. O machismo está em todo mundo e o primeiro passo é a consciência dessa realidade. A partir dela, trabalhamos todos os dias para nos desconstruir).

A dança da vitória de Rayssa Leal, uma dança que se espalhou delirantemente por um Brasil que se enxereca um pouco mais a cada dia, é um grande evento enxerecador.

Xerecar é um jeito enxerecado de ver o mundo. Pode estar no gesto do jogador que dedica seu gol a Oxossi e, portanto, se manifesta contra o racismo religioso, pode estar numa declaração pelo direito de existir do povo Palestino, pode estar no narrador que cita em alto e bom som o nome do Orixá a quem o atacante acaba de dedicar o gol, e certamente está no jogador de vôlei que não tem medo de se mostrar feminilizado.

Xerecar é toda e qualquer luta por direitos humanos. É se deixar atravessar por emoções, vulnerabilidades, medos, paixões. É saber que existem homens com bucetas e mulheres com pau. É querer aprender o que é uma pessoa trans não binária e como se utilizam pronomes neutros. É saber que vamos errar, falar coisas impróprias e indelicadas, que seremos corrigidos, corrigidas e corrigides e que, a partir do deslize, nos esforçaremos para aprender a existir e se relacionar nesse novo mundo.

Um homem cis e heterossexual pode perfeitamente xerecar a vida adoidado, assim como muitas mulheres conservadoras são completamente incapazes de exerecarem-se.

Esse enxerecamento da vida não tem volta, eu sinto informar. Pois vejamos: a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Atenas 1896, teve apenas atletas homens porque era quase uma unanimidade a noção de que mulheres eram pessoas fisicamente incapazes de competir nesses níveis.

Quatro anos depois, em Paris, pudemos competir pela primeira vez. Entre os 997 atletas, 22 eram mulheres - ou 2%. No Rio, em 2016, tivemos 45,2% de participação feminina, e, em Toquio, somos 49% do total.

Mas tem mais.

Tudo indica que os grandes nomes desses Jogos serão femininos. Katie Ledecky, da natação, Simone Biles, da ginástica artística e Naomi Osaka, do tênis.

Trata-se de um irreversível processo de enxerecamento das Olimpíadas, da sociedade e da vida. Um enxerecamento que vai nos fazer mais vulneráveis, emotivos, afetuosos, cuidadosos, potentes, solidários, comunitários. O futuro ou é feminino, ou simplesmente não será.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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