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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um pedido à seleção feminina de futebol

Pia Sundhage convoca seleção brasileira feminina - Reprodução/CBFTV
Pia Sundhage convoca seleção brasileira feminina Imagem: Reprodução/CBFTV
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

11/06/2021 12h44

Depois que a seleção masculina de futebol inaugurou o "não-manifesto" talvez fosse bacana - para não dizer histórico - que a seleção feminina se posicionasse em carta aberta à nação de forma menos lacônica e também menos acovardada do que fizeram os colegas da seleção ao lado.

Não apenas porque o presidente da confederação que diz respeito a elas foi afastado depois de graves acusações de assédio sexual e moral (tema que interessa a todos e todas mas diz respeito diretamente às causas feministas), mas também para dar ao Brasil um recado de que talvez apenas a seleção masculina seja frouxa, moralmente capenga e alienada.

Não se chega à seleção feminina de futebol no Brasil sem ter passado por uma série de experiências de abuso e de assédio. Nenhuma mulher joga futebol profissional no Brasil sem ter muitas histórias desse tipo para contar, ainda que escolhamos não fazer isso porque o custo pessoal de encarar essa jornada é inestimável.

Assim, falar coletivamente poderia ser uma boa saída para que pelo menos uma de nossas seleções de futebol não deixe de se posicionar a respeito de tantas barbaridades, e também para marcar uma diferença nítida entre os badalados craques da seleção masculina e a ala feminina, que tanto teve que lutar - até mesmo contra a CBF - para chegar onde hoje está.

A treinadora da seleção brasileira de futebol feminino, a sueca Pia Sundhage, deu uma declaração sobre as acusações de assédio que me pareceu superficial demais. Verdade que Pia pelo menos teve a dignidade de tratar da questão de forma um pouco mais honesta do que Tite, mas ainda assim foi pouco. Pia disse que não se sentia muito confortável falando numa língua que não é a dela porque falar desse tipo de assunto exige que escolhamos muito bem as palavras. Ela está certa. E eu gostaria imensamente que ela e sua seleção fizessem exatamente isso: juntas, escolher bem as palavras e fazer um manifesto histórico endereçado à nação.

Poderiam pedir vacinação mais rápida, pedir que todos e todas usem máscaras sempre, mesmo depois de tomar a vacina, lamentar a morte de quase 500 mil brasileiros e brasileiras, enfim, fazer um manifesto alinhado às causas mais nobres e humanitárias. Estamos precisando de ajuda nessa batalha contra a barbárie e seria maravilhoso se nossas craques pudessem nos ajudar.

Futebol não se joga só dentro do campo e nós aqui, torcedoras e torcedores, estamos precisando de mensagens que nos façam seguir acreditando em dias melhores - e acreditando em nossas ídolos e ídolas.

PS Pouco tempo depois da publicação desse texto - e certamente não por causa dele - as jogadoras da seleção se manifestaram coletiva e publicamente sobre o assédio sexual. Você pode ler o manifesto aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL