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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que e para que misturar política e futebol?

Sócrates comemorando gol pelo Corinthians - Rodolpho Machado
Sócrates comemorando gol pelo Corinthians Imagem: Rodolpho Machado
Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

10/06/2021 14h06

Essa é uma pergunta que recebo de forma recorrente. Por que, para que, ficar misturando a todo o instante política e futebol? Não podemos apenas jogar bola e deixar a política de lado um pouco?

A reflexão parece razoável. Se a vida tá tão puxada lá fora, por que não fazer do jogo que a gente ama a nossa bolha de relaxamento? Por que pesar tudo tanto sempre? Não dá para parar de exigir posicionamento, parar de extrapolar esse troço, parar de politizar até tiro-de-meta?

Eu adoraria que a gente vivesse num mundo de realidades separadas: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas, para o bem e para o mal, esse não é o mundo em que vivemos.

Somos seres sociais e existimos em sociedade. O que significa dizer que estamos a todo o instante nos afetando uns aos outros. Política é, para além do jogo que regula convenções, normas e relações contratuais, também o jogo de como esses afetos nos constituem e do que fazer a partir do momento em que, causados por esses afetos, nos conectamos com o outro (salve, grande professor Vladimir Safatle, e obrigada por nos apresentar a lógica do circuito dos afetos).

O futebol é uma das instituições que mais tem a capacidade de mobilizar esses afetos. Ele, muitas vezes, determina boa parte de nossa identidade, de nossas particularidades. Ninguém escolhe torcer para determinado time impunemente. Existe ali um conjunto de relações afetivas, o time e você; você e o time.

Por isso, tudo o que diz respeito ao futebol é político e envolve política: desde a escolha de um time, passando pela forma como a gente torce e distorce, pela maneira como a gente reage aos dirigentes e às suas ações, pelo jeito como a gente ama os craques que vestem nossa camisa, como a gente detesta o grosso que veste nossa camisa, como a gente trata os rivais etc. Tudo é político.

Já seria assim mesmo que vivêssemos em uma sociedade justa e igualitária. Mas num país que há 500 anos existe submetido a lógicas coloniais de exploração e de extermínio, muitas outras coisas se relacionam politicamente com o futebol.

A maior parte de nossos jogadores vêm das periferias, e a maior parte de nossos dirigentes vêm da classe dominante. Mas vejam: se quem faz o jogo é o torcedor, a torcedora, o jogador e a jogadora, por que exatamente quem dá as cartas é a parcela mais miúda desse país: homens brancos ricos e poderosos? Não seria o futebol um micro-cosmo da absurda realidade em que vivemos? Como ousar tentar separar um do outro e o outro do um?

Toda vez que você se revoltar com a venda do craque do seu time para uma equipe árabe, norte-americana ou chinesa lembre-se de que você está tomando uma atitude política. Toda vez que você xingar um dirigente, lembre-se: atitude política. Toda vez que você reclamar do calendário de jogos, outra vez: atitude política. Tá revoltado por que a seleção tirou seu jogador mais valioso da disputa do Brasileirão? Você está agindo como um ser político.

Por que, então, misturar política e futebol? Porque não é possível separar o que é parte integrante e fundamental do todo. Nem mesmo separar o que nasceu junto misturado.

O futebol no Brasil nasceu como uma manifestação política da classe trabalhadora que, oprimida e explorada nas fábricas, fazia no campo a arte que era impedida de executar fora dele. Não é possível separar aquilo que se formou junto.

Sendo assim, quando os jogadores da seleção escolhem escrever um manifesto que não manifesta nada, que não coloca uma linha sequer pedindo que a população seja vacinada de forma rápida ou exigindo vacina para garis e funcionários do correio, ou lamentando 470 mil mortos, por exemplo, essa é uma atitude política. Eles estão sim fazendo política. Porque não há como deixar de fazer política: nem mesmo silenciando.

Portanto, se entendermos que não há como deixar de fazer política sequer por um instante de nossas vidas, porque tudo o que nos envolve e afeta é político, a gente entende que só existem duas escolhas: se manifestar politicamente por inclusão ou se manifestar politicamente por exclusão? (Salve, Paulo Freire).

A escolha dos jogadores de futebol da seleção brasileira foi a de se manifestar politicamente em nome da exclusão, do extermínio, da chacina. Ao escreverem um manifesto que manifestou o silêncio eles entraram para a história compactuados com o fascismo.

É uma seleção vergonhosa e para ser esquecida. Mesmo que, em campo, satisfaçam os próprios egos e ganhem tudo. Depois, quando o plano de extermínio capitaneado pelo governo federal terminar de ser executado, vamos ver quem sobra para torcer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL