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Milly Lacombe

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jogar feio e ganhar ou jogar bonito e perder?

Holanda Curyff 1974 Copa do Mundo - AFP
Holanda Curyff 1974 Copa do Mundo Imagem: AFP
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Milly Lacombe

Milly Lacombe, 53, é jornalista, roteirista e escritora. Cronista com coluna nas revistas Trip e Tpm, é autora de cinco livros, entre eles o romance O Ano em Que Morri em Nova York. Acredita em Proust, Machado, Eça, Clarice, Baldwin, Lorde e em longos cafés-da-manhã. Como Nelson Rodrigues acha que o sábado é uma ilusão e, como Camus, que o futebol ensina quase tudo sobre a vida.

Colunista do UOL

02/06/2021 13h01

Eu ousaria dizer que houve um homem que ofereceu ao futebol brasileiro um caminho para a salvação e o nome dele foi Jesus.

O time do Flamengo que o treinador português Jorge Jesus começou a construir em 2019 e que encantou a todos - e segue encantando, mesmo que em doses menos hipnóticas - era uma equipe orientada para atacar. Para frente, em busca do gol, sem deixar de se movimentar jamais Um tipo de futebol que há muito não víamos. Um tipo de jogo que nos foi oferecido por Telê Santana nas seleções de 82 e 86, mas também, em certa medida, no São Paulo pelo mesmo treinador.

Fica com Rinus Michels, treinador da Holanda na década de 70, a honra de ter sido o pensador de uma nova forma de jogarmos bola: o futebol total. Uma equipe em que os jogadores se movimentavam continuamente, sem guardar posições fixas, e orientada para atacar sempre. Toque de bola, troca de posição, rapidez. Dos pés desse time saía uma nova música, que nunca tínhamos escutado em campo. Talvez tenha sido essa a última revolução pela qual o jogo passou, e que Telê, Pep e Jesus souberam usar com méritos.

A questão é que as seleções de Telê fracassaram em voltar com o caneco e, a partir desse dia, os estrategistas do nosso futebol entenderam que entre jogar bonito e perder e jogar feio e ganhar seria melhor a segunda alternativa. E lá fomos nós para os terrões da vida matar o nascimento de meias e incentivar uma inundação de volantes raçudos.

De fato, conseguimos alcançar o objetivo de jogar feio e ganhar. Mas também outro: o de jogar feio e perder. E então, depois de um longo e tenebroso inverno, aparece um Jesus e mostra que é perfeitamente possível jogar bonito e ganhar.

Mas as coisas não mudam da noite para o dia. Times orientados a partir de sistemas defensivos quase intransponíveis seguem servindo como exemplo de bom futebol para muita gente. São Paulo e Palmeiras hoje têm equipes com fortíssimos sistemas defensivos e que, certamente, seguirão sendo muito competitivas ao longo da temporada, mas não é exatamente um prazer vê-los jogar, salvo um ou outro lance.

No Flamengo, Rogério Ceni teve o mérito de não tentar matar a pulsão de vida do time, que se organiza para atacar mais do que para defender, e o resultado é, para o meu gosto, bonito de se ver. É um time que joga e deixar jogar.

O Fluminense de Roger está sendo construído em um modelo parecido, e tem protagonizado jogos memoráveis, assim como o Atlético-MG. Bahia, Fortaleza e Ceará, times que conquistaram importantes vitórias na primeira rodada do Brasileirão, também preferem jogar para frente, o que é animador.

Claro que o torcedor e a torcedora querem conquistas importantes, mas não é possível ganhar tudo sempre, embora seja possível criar uma identidade e uma cultura futebolística e se manter fiel a ela sabendo que derrotas farão parte da jornada. Esse talvez seja o grande desafio. Mas para que um treinador consiga realizar a tarefa ele precisa de tempo, de paciência e de uma diretoria que não trate o clube como um entreposto de negociação de jogadores porque é impossível construir um time competitivo e adotar uma cultura de jogo com profissionais entrando e saindo sem que consigamos entender se há nesse frenesi qualquer lógica.

Fico com a impressão de que desaprendemos a perder, ou talvez nunca tenhamos de fato chegado perto de aprender. Mas uma coisa é ver o Corinthians em campo e perceber que não existe ali, ainda, uma ideia de time, o que é preocupante. Contra isso o torcedor e a torcedora podem e devem se manifestar. Outra coisa é ver o Palmeiras em campo, perceber que existe ali uma equipe sólida, com um projeto de jogo, uma equipe difícil de ser batida e aceitar que algumas derrotas e eliminações estarão no caminho e servirão para que Abel faça ajustes e siga sendo competitivo. Não é um futebol que me agrada especialmente, mas sem dúvida é um futebol que já se mostrou vencedor e que seguirá dando trabalho aos adversários.