PUBLICIDADE
Topo

Lei em Campo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por farsa, Chile já foi banido de Copa do Mundo

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

06/09/2021 21h35

Andrei Kampff

O fiasco internacional do "jogo sem fim" tem culpados, claro. E eles precisam ser punidos. Afinal, foi um jogo de Eliminatórias para Copa, entre Brasil e Argentina, com milhões de pessoas assistindo e vários compromissos comerciais assumidos.

Apurar com rigor o caso é obrigação do Estado, já que houve crime contra saúde pública, e também do movimento esportivo, já que um jogo não aconteceu.

Agora, por mais que o artigo 14 do Código da Fifa fale em exclusão de uma seleção da competição, acho caminho muito pouco provável. Mas é verdade que ele já foi tomado algumas vezes pela entidade.

Lembro aqui do caso do Chile.

Com vocês, uma das maiores farsas que o futebol já apresentou.

Caso Rojas

Dia 3 de setembro de 1989. Maracanã recebe um público 141.072 torcedores. Brasil e Chile se enfrentavam pelas eliminatórias para a Copa do Mundo da Itália. A seleção chilena precisava de algo surpreendente para vencer o jogo e garantir uma vaga no mundial, já que perdia por um a zero e era dominada pelo time de Sebastião Lazaroni.

24 minutos do segundo tempo, e o improvável aconteceu. Um sinalizador foi lançado da arquibancada pela torcedora Rosenery Melo. Imediatamente, o goleiro Rojas caiu, ensanguentado e reclamando muito de dores. Havia um corte na testa. Rapidamente todos os jogadores chilenos deixaram o campo, reclamando de falta de segurança. A imagem do goleiro carregado pelos companheiros ganhou o mundo.

Após o jogo, torcedores chilenos foram às ruas festejar. No aeroporto, uma multidão esperava o time, tratado como vítima de violência no Brasil. Os jogadores foram recebidos como heróis. Como a partida foi encerrada antes dos 30 minutos do segundo tempo, o Chile iria jogar a Copa do tapetão. A chance de ir para o mundial seguia viva.

Mas não durou muito. Imagens mostraram que o foguete caiu a um metro do goleiro. E mais: um exame não encontrou presença de pólvora nem queimadura no local do ferimento, somente um corte. E, para complicar o que já estava complicado, a TV mostrou que, ao cair, Rojas tirou um objeto de dentro da luva. Era uma lâmina. Sim, o goleiro chileno havia premeditado um golpe. Ele levou para o campo lâminas e as deixou escondidas dentro das luvas. A ideia era utilizar o artefato assim que o pretexto aparecesse. O sinalizador apareceu.

A imprensa ajudou a FIFA, e a farsa foi desmascarada. Os próprios jogadores chilenos confessaram a armação. Rojas assumiu: "Me cortei com uma gilete, e a farsa foi descoberta. Foi um corte na minha dignidade". A entidade máxima do futebol agiu rapidamente e de maneira rigorosa, contrariando a normalidade de suas ações. As punições foram fortes.

Roberto Rojas foi banido do futebol. Além dele, o técnico Orlando Avarena, o médico Daniel Rodríguez e o dirigente Sergio Stoppel também foram afastados em definitivo do futebol. O capitão da equipe, Fernando Astengo, pegou suspensão de quatro anos. E, mais, o Chile foi impedido de disputar as Eliminatórias para a Copa de 1994. A FIFA decretou vitória brasileira por 2 a 0, e a classificação para a Copa da Itália estava garantida.

Em 2001, Rojas foi perdoado pela Fifa, que retirou seu banimento. O chileno trabalhou como treinador de goleiros do São Paulo, seu último clube como jogador profissional. No clube paulista, chegou a ser treinador. Já Rosenery ficou famosa. Mesmo tendo sido presa em flagrante naquele dia, ela acabou libertada depois do descobrimento da farsa e virou capa da revista Playboy. Ganhou apelido, a "fogueteira do Maracanã".

Existe caminho para exclusão?

Agora, voltamos para o "jogo sem fim". Repito, o que aconteceu foi grave e precisa de apuração rigorosa. Do poder público e do movimento esportivo.

Como jogo é pelas Eliminatórias, quem analisa o caso é a Fifa.

O art 5 do Regulamento da Competição fala em "força maior". O que não me parece ser o caso, afinal a Argentina ainda tinha comp participar do evento, mesmo sem quatro atletas.

A Argentina alega que não sabia da proibição sanitária. Primeiro, vários depoimentos e encontros confirmam que houve comunicação da Anvisa a Associação de Futebol Argentina. Segundo, conhecer regras sanitárias de país que se vai é obrigação de todos. Terceiro, omitir ou adulterar documentos migratórios é algo muito grave.

O abandono do jogo alegando desconhecimento da proibição das autoridades brasileiras por violacão às regras sanitárias seria uma "farsa argentina"?

Descartada "força maior", olhemos para artigo 14 do Código Disciplinar. Por abandono de partida, ele prevê W.O, multa de até 10 mil francos suíços e até expulsão da competição.

É o Comitê Disciplinar da Fifa que vai analisar essa questão. Ele irá responder a questão: quem foi o responsável pelo cancelamento do jogo? Depois, olhar regulamento e analisar caminhos para punição.

Mas por mais que exista a previsão, o rigor da pena não deve ser o mesmo que a seleção chilena e Rojas já sentiram. E fica fácil entender por quê.

Nos siga nas redes sociais: @leiemcampo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL