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Surto de COVID no Japão pressiona realização da Olimpíada de Tóquio

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Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduado e mestrando em Direito Desportivo, é conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro "#Prass38".

06/01/2021 09h37

Por Thiago Braga

Faltando menos de 200 dias para a cerimônia de abertura da Olimpíada de Tóquio, os organizadores do evento e o Comitê Olímpico Internacional (COI) têm uma nova preocupação: o aumento de casos de Covid-19 pressiona as autoridades a apresentarem respostas rápidas. As prefeituras de Saitama, Chiba e Kanagawa pediram ao governo nacional que declarasse estado de emergência depois que a capital registrou um recorde diário de 1.337 novos casos na véspera de Ano Novo. O governo disse que vai considerar o estado de emergência à medida que os casos aumentem e comecem a bater recordes.

Além do aumento nos casos de coronavírus, os organizadores dos Jogos têm de lidar agora com a falta de popularidade. Pesquisa recente da emissora pública japonesa NHK mostrou que 32% dos entrevistados defendem que os Jogos sejam totalmente cancelados. Apenas 27% disseram que o evento deveria prosseguir conforme o planejado, enquanto 31% preferem outro adiamento. De acordo com pesquisa da NHK em outubro, 40% disseram que a Olimpíada deveria ser realizada, com apenas 23% defendendo o cancelamento e 25% optando por mais adiamento.

"De acordo com o que o COI, Comitê Organizador e autoridades públicas japonesas sempre disseram, um novo adiamento é o cenário colocado de parte. Percebe-se. Seria complicado juridicamente, desportivamente e comercialmente. Creio que ou há Jogos em 2021 ou serão cancelados", afirma o advogado Alexandre Mestre, colunista do Lei em Campo e especialista nas regras olímpicas.

As autoridades prometeram anunciar planos concretos no início do ano novo sobre a segurança sanitária para todos os envolvidos na realização dos Jogos.

As cidades-sede foram instadas pelo governo japonês a implementar medidas preventivas contra a Covid-19 para proteger os atletas. O governo também apoiará financeiramente as cidades-sede na implementação de medidas antivírus, com a Agência de Esportes do Japão destinando US$ 125 milhões às áreas participantes.

"Acho que ainda é cedo para avaliar o cenário da Olimpíada remarcada frente ao contexto da Covid-19. Isto porque os países em geral também estão neste momento em estado de emergência, ainda que não formalmente declarados. E a vacinação deve ocorrer no primeiro quadrimestre. De todo modo, há ainda a possibilidade de pequenas bolhas em Tóquio e nas cidades-sede suplementares com testes, controles e confinamentos", afirma Paulo Schmitt, advogado, Procurador-Geral da Justiça Desportiva Antidopagem e um dos autores do estudo Esporte Fora da Bolha.

Yoshiro Mori, o presidente do comitê organizador e ex-primeiro-ministro, descartou qualquer cancelamento dos Jogos. Questionado sobre a presença de torcedores, ele disse que uma decisão final deverá sair até maio. Este é um assunto que tira o sono dos organizadores locais. A presença de público é tida como fundamental para minimizar o prejuízo financeiro acarretado pelo adiamento para 2021.

O orçamento oficial para as Olimpíadas de Tóquio foi aumentado no mês passado para US$ 15,4 bilhões, um aumento de US$ 2,8 bilhões devido ao atraso.

"Se a presença de público tiver que ser sacrificada em prol da viabilização do evento, julgo que, infelizmente, terá de ser opção a ter em conta. Confiemos que não seja esse o caso. A Humanidade, mais do que nunca, precisa da celebração dos Jogos Olímpicos. Precisamos desse elo de união e valores", resumiu o advogado especialista em direito esportivo Alexandre Mestre.

Qualquer redução no número de fãs afetará o orçamento do comitê organizador. Sem torcedores, o déficit terá de ser compensado por entidades governamentais. O COI já se prepara para despejar dinheiro caso seja necessário para minimizar os prejuízos.

"Acredito que eles vão implantar o esquema de "bolha". Confinam todas as pessoas que vão trabalhar e, depois dessa quarentena, as pessoas que trabalham ali não saem desse perímetro. Do hotel para o local de trabalho, pessoas de fora não têm acesso. Fica um universo ali. Não fazer os Jogos, vai ter um impacto muito negativo no mundo do esporte, tanto economicamente quanto do andamento do esporte em si. A gente precisa que os Jogos aconteçam, de uma forma ou de outra, porque se não vai ser muito prejudicial para o movimento esportivo de forma geral", finalizou Lara Santi, biomédica e especialista em controle antidoping da WADA (Agência Mundial Anditoping).