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Como o streaming é tratado pelos clubes brasileiros

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

17/07/2020 04h00

Por Ivana Negrão

O streaming chegou de vez ao Brasil. "É uma tendência. Uma ferramenta muito poderosa, que possibilita você conhecer melhor o seu consumidor. Ainda vai crescer muito. Só precisa ser melhor utilizado e compreendido", avalia Bruno Maia, executivo de marketing e autor do livro "Inovação é o Novo Marketing".

Os canais oficiais dos clubes não são novidade, mas a disputa entre Flamengo e Rede Globo no Carioca, e a publicação da Medida Provisória 984/2020, que altera as diretrizes sobre o direito de arena no país, além da pandemia do coronavírus, fizeram com que o streaming conquistasse "oto patamar".

A final da Taça Rio transmitida pela FluTV bateu recorde mundial de acessos simultâneos em uma transmissão esportiva, com 3,6 milhões de espectadores. Antes disso, o Flamengo já tinha conquistado números consideráveis quando transmitiu o jogo com o Boavista no YouTube, Facebook e Twitter.

Fortaleza e Ceará também estão exibindo jogos do retorno do Campeonato Cearense. A transmissão da TV aberta é espelhada nos canais oficiais dos clubes. O Atlético-MG também mostrou ao vivo o jogo-treino que realizou contra o América-MG, no YouTube e Facebook. A transmissão recebeu muitas críticas, apesar da boa audiência.

"Estão criando uma visão distorcida, uma expectativa para o torcedor que pode vir a gerar um trauma em razão de um produto mal apresentado. Tantas ofertas confusas podem irritar o consumidor, porque é feito de forma aleatória. O Flamengo teve problemas. Precisou voltar atrás na cobrança e, num segundo momento, retornar a TV aberta", pondera Bruno Maia.

"Muitos clubes estão se comportando como se amanhã tivessem muitos jogos para transmitir. Mas quase nenhum clube tem ativo disponível para isso", lembra Guilherme Bellintani, presidente do Bahia. Muitos clubes têm contratos de transmissão de jogos das principais competições nacionais até 2024. A alternativa talvez esteja nos estaduais do ano que vem.

"O que me preocupa é que os processos estão acelerados. A razão de negócio do streaming não está sendo tratada de forma correta, na maioria dos casos. Customização do conteúdo, complementariedade (cardápio diversificado) e refinamento de dados do consumidor são as diretrizes que não estão sendo exploradas como se devem. Mas o Bahia já faz de outra forma", analisa Bruno Maia

O clube baiano lançou nesta semana o Sócio Digital, uma plataforma que dará ao torcedor acesso a um cardápio inédito de vídeos, com séries, jogos históricos, resenhas, programas, treinos e bastidores. "O Bahia tem trabalhado com o entorno do jogo. Serão, pelo menos, duas horas de cobertura ao vivo por dia", compartilhou Guilherme Bellintani.

O Vozão TV também tem oferecido conteúdos diferentes para o torcedor. "Fizemos o aniversário do clube de forma virtual, e também o Arraiá do Vozão. Tudo isso no YouTube, mas a Vozão Play, ainda em fase de teste, também vai ofertar muito conteúdo exclusivo para o sócio torcedor", informa Bruno Reis, executivo de comunicação do Ceará.

O projeto do Sócio Digital do Bahia tem pelo menos dois anos. A expectativa era lançá-lo em dezembro, mas a pandemia antecipou a novidade. E para marcar o lançamento, o clube foi ousado. Promoveu o "esvaziamento" do YouTube. "Retirar todo o conteúdo do canal foi uma estratégia para chamar atenção, e gerou uma adesão de 4 mil assinaturas apenas no primeiro dia do Sócio Digital", destaca Bellintani.

"Esses conteúdos são para nicho, o que já é gente pra caramba. Mas precisam ser trabalhados de uma forma complementar. Venda direta dos clubes ainda não substitui rentabilidade com os direitos de transmissão", alerta Bruno Maia.

O Bahia faturou 22 mil reis com o canal no YouTube desde 2011. Por isso, o clube quer monetizar seu conteúdo por meio do Sócio Digital. A cobrança não será por evento, mas por mensalidade. A expectativa é faturar perto de 5 milhões de reais até 2021, e 10 milhões em 2022. "Mais do que o Bahia fatura com pay per view hoje, que é cerca de 9 milhões de reais. E estamos criando um ativo novo, uma renda extra. YouTube é um meio, não um fim. Vamos continuar usando as redes sociais de forma complementar", finaliza o presidente do clube.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL