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Caso Ronaldinho mostra como fama também precisa de cuidado

Lei em Campo

Andrei Kampff é jornalista formado pela PUC-RS e advogado pela UFRGS-RS. Pós graduando em Direito Esportivo e conselheiro do Instituto Ibero Americano de Direito Desportivo e criador do portal Lei em Campo. Trabalha com esporte há 25 anos, tendo participado dos principais eventos esportivos do mundo e viajado por 32 países atrás de histórias espetaculares. É autor do livro ?#Prass38?.

09/03/2020 15h04

Ronaldinho surgiu no último final de semana com uma toalha sobre os braços, cobrindo assim as mãos algemadas ao ser preso no Paraguai por usar passaporte falso para entrar no país vizinho. No documento, o ex-camisa 10 da seleção era identificado como um cidadão paraguaio naturalizado. A imagem de Ronaldinho algemado, forte, rodou o mundo. Mas como o futebol poderia ter atuado para preparar Ronaldinho para o pós-carreira?

"Como nós sabemos, ao invés dele ter uma equipe profissional cuidando de uma das maiores marcas na época da sua atividade profissional, desde jovem ele tem a associação com o irmão, o irmão como aquele familiar de confiança. Isso se prolongou até a sua aposentadoria. E tem milhares de passagens completamente amadoras, completamente fora da realidade, cenas com mulheres na piscina, o irmão indo pegar camisa na loja do Flamengo. Então o Ronaldinho geriu muito mal sua carreira, deixou tudo na mão do irmão. O seu homônimo Ronaldo, Fenômeno, por exemplo, tem um fundo de investimento em Madri. E agora essa prisão mostra até que ponto pode chegar um ídolo. Isso jamais poderia acontecer com um jogador do tamanho do Ronaldinho Gaúcho", analisa o consultor de marketing Amir Somoggi.

A prisão no Paraguai não foi o primeiro episódio em que Ronaldinho se envolve e que compromete a imagem do ex-jogador. Só no ano passado ele teve o passaporte brasileiro apreendido por não pagar uma multa ambiental ao Ibama e virou réu em um inquérito que apura a participação dele em um esquema de pirâmide financeira.

Para Somoggi, a aposentadoria poderia fazer com que Ronaldinho conseguisse explorar ainda mais a imagem do jogador plástico que encantou multidões, sendo aplaudido pelos torcedores do Real Madrid, na casa do rival, após uma atuação de gala com a camisa do Barcelona.

"Ele ainda tem enorme potencial. O ex-jogador pode ganhar às vezes muito mais do que o jogador, não é à toa que o Pelé ganhou muito mais. O jogador aposentado tem muito mais tempo disponível, mais capacidade pra viajar o mundo, mas ele precisa ter construído uma carreira perfeita no esporte, para quando se aposentar acontecer como aconteceu com o Michael Jordan, que fatura US$ 100 milhões por ano graças ao contrato que ele tem com a Nike para a cessão do uso da marca Air Jordan. Então, é só mais um exemplo de como a falta de gerenciamento de carreira de um atleta pode ser prejudicial ao ponto de chegar ao fundo do poço, como é o caso dele. Antes era só o folclore, umas brincadeiras. Mas agora não. Agora é falsificação de documento de entrada num país estrangeiro", pontua Somoggi.

Além do mau gerenciamento de carreira, é preciso falar sobre a formação dos atletas no Brasil. Para virar profissional, quem sonha em ser atleta tem que abandonar um período importante da vida, que é a adolescência. No ciclo normal da vida, ninguém passa da infância para a fase adulta sem ser adolescente. Assim, acabam tendo um déficit no desenvolvimento, muitas vezes passando a viver a adolescência aos 25, 30 anos, quebrando o ritmo natural do ciclo do aprendizado e do conhecimento.

A Constituição Federal prevê, em seu artigo 227, que é "dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão".

Fato é que no Brasil, a psicologia no esporte está há anos relegada a um papel secundário na formação dos atletas, em especial no futebol. E o motivo para esse desprezo ocorre justamente quando o Brasil conquistou o primeiro de seus cinco títulos da Copa do Mundo.

Ficou famoso o teste psicotécnico aplicado em Garrincha pelo psicólogo João Carvalhaes, onde o ponta do Botafogo teria marcado apenas 38 de 123 pontos possíveis. Instrução primária, inteligência abaixo da média e agressividade zero eram as classificações que Carvalhaes fez sobre Garrincha. Outro a passar pelo escrutínio do psicólogo foi Pelé, então com 17 anos. Garrincha tinha 25. Assim, a dupla ficou na reserva nos dois primeiros jogos e só foram ganhar a titularidade na terceira partida da primeira fase, contra a então União Soviética, na partida que ficou conhecida como os cinco melhores primeiro da história dos mundiais, tamanha foi a atuação de Garricha.

O apoio psicológico como uma obrigação só é descrito na Lei Pelé em relação aos clubes formadores, quando exige que o clube disponibilize para o atleta em formação um psicólogo. O artigo 2, XI, da Lei Pelé fala "da segurança, propiciado ao praticante de qualquer modalidade desportiva, quanto a sua integridade física, mental ou sensorial". No artigo 29, parágrafo 2º, a alínea "c", afirma-se que os clubes têm de "garantir assistência educacional, psicológica, médica e odontológica, assim como alimentação, transporte e convivência familiar" aos atletas das categorias de base.

"Não existe uma especificação de que forma essa pessoa tem que atuar, quantos psicólogos você precisa ter a cada número mínimo ou máximo de atletas, se isso precisa ser do clube ou pode ser terceirizado, é uma obrigação prevista de forma genérica", analisa a advogada Danielle Maiolini, especializada em Direito Esportivo. "Hoje os clubes que têm o Certificado de Clube Formador da CBF realmente têm um psicólogo. Mas a forma como isso acontece no dia a dia, esse acompanhamento, não dá para se dizer se está sendo feito de forma adequada ou não, porque fica de acordo com a ingerência de cada clube", reforça a advogada.

Por Thiago Braga

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