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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Elenco estrelado pode levar Senegal a 'corrigir história' na África

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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

08/01/2022 04h00

Quem vai ganhar a Copa Africana de Nações? Está aí uma pergunta difícil de responder. Porque se o futebol global de seleções de hoje em dia já é marcado pelo equilíbrio, isso é ainda mais acentuado entre as forças (e não tão forças) do continente africano. Se os algoritmos das casas de apostas e alguns especialistas estiverem certos, pode estar chegando a vez de Senegal.

É a chance de ouro de conquistar um título e "corrigir a história". A Copa Africana já teve 14 campeões diferentes, muitos deles com menos tradição e material humano que a seleção senegalesa já teve ao longo dos anos. Com anos de estabilidade no comando e um time recheado de estrelas, chegou a hora?

A seleção de Mendy, goleiro campeão da Europa com o Chelsea, Koulibaly, zagueiro que faz ótimas temporadas em sequência pelo Napoli, o veterano Gueyé, que navega entre as estrelas do PSG, e Mané, uma das armas de um Liverpool fortíssimo, é a mais estruturada taticamente e tem mostrado superioridade nas fases de eliminatórias - seja para a Copa do Mundo ou para a própria Copa Africana.

Em 2019, bateu na trave. Repetindo o que havia acontecido em 2002, Senegal chegou à decisão e perdeu. Duas décadas atrás, nos pênaltis, para Camarões. Na última edição, caiu por 1 a 0 para a Argélia, que é a outra grande favorita do torneio. O grande astro argelino é Mahrez, que vem se destacando com a camisa do Manchester City. Mas a Argélia não é "Mahrez e mais dez". Tem também Slimani, do Lyon, veterano e artilheiro das eliminatórias africanas para a Copa. Tem Bennacer, volante do Milan.

Considerando que as últimas seis edições de Copa Africana tiveram seis campeões diferentes e nove seleções chegando à final, é improvável que a disputa entre Senegal e Argélia se repita. O equilíbrio é imenso. Mas que são favoritas, são.

Um segundo bloco de candidatos a título reúne o Egito, de Salah, Camarões, que é o país anfitrião, Marrocos, Costa do Marfim e Nigéria. A pandemia bagunçou um calendário que já é naturalmente apertado. No meio da Copa Africana, em 26 de janeiro, serão sorteados os cinco confrontos de mata-mata que definirão os representantes do continente no Catar. A Costa do Marfim, por exemplo, já foi eliminada da Copa do Mundo e não estará neste sorteio.

Se formos elencar quais são as forças históricas da África no futebol, possivelmente Camarões apareceria na primeira posição. É o segundo maior campeão do continente e é o país que mais vezes se classificou para Copas do Mundo. Além de ter mostrado ao mundo alguns jogadores de destaque global, ter marcado o imaginário coletivo com aquela seleção de 90, a primeira africana a realmente assustar e ganhar jogos contra as forças globais.

Mas não dá para colocar Camarões muito à frente de Nigéria e Gana, por exemplo, e a Costa do Marfim também já teve resultados expressivos e jogadores relevantes. O norte da África sempre teve força, com Egito (maior campeão continental), Argélia, Marrocos e Tunísia. Senegal, neste contexto, poderia ser considerado uma espécie de "nona força" histórica.

Para entrar no grupo e chamarmos de G9 da África, porém, é preciso ganhar uma Copa Africana, uma barreira que os senegalesas nunca conseguiram superar - todos os outros citados já foram campeões pelo menos uma vez.

Importante ressaltar que só três seleções africanas chegaram às quartas de final de uma Copa do Mundo. Camarões em 90, Gana em 2010 (perdendo daquela forma para o Uruguai, nos pênaltis), e a não tão lembrada seleção de Senegal, em 2002.

Foi uma Copa do Mundo esquisita, em que muitas forças europeias chegaram com jogadores lesionados. Mas o fato é que Senegal ganhou da França, então campeã do mundo e da Europa, na fase de grupos, passou pela Suécia nas oitavas de final e só parou diante da Turquia, na prorrogação. Era um time duro e defensivo, comandado pelo técnico francês Bruno Metsu. Não tinha grandes estrelas, mas tinha a liderança de Aliou Cissé. Adivinharam: hoje ele é o técnico de Senegal.

O time atual é diferente. Joga de forma mais solta e tem mais talento ofensivo. Em 2018, não conseguiu avançar na Copa do Mundo pelo critério do fair play. Meses depois, chegou à final da CAN. A base é a mesma, há talento e experiência.

Se olharmos para os grupos da primeira fase da competição, é difícil imaginar que alguma das seleções do G9 continental ficará de fora do mata-mata. Mas Senegal é, sem dúvida, a que tem o grupo mais fácil. Guiné, Zimbábue e Maláui não são páreo para o time de Cissé, e três vitórias contundentes podem embalar o time para as oitavas de final.

A Copa Africana será disputada de 9 de janeiro a 6 de fevereiro, e o jogo de abertura, domingo, será entre Camarões e Burkina Faso, às 13h (ao vivo na Band). Senegal estreia na segunda-feira, contra Zimbábue. Os jogos mais chamativos da primeira rodada serão entre Gana e Marrocos, na segunda, e Egito e Nigéria, na terça.