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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: São Paulo se salva e acaba de forma melancólica um ano sem vergonha

Rogerio Ceni técnico do São Paulo durante partida contra o Juventude no estadio do Morumbi - Marcello Zambrana/AGIF
Rogerio Ceni técnico do São Paulo durante partida contra o Juventude no estadio do Morumbi Imagem: Marcello Zambrana/AGIF
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

06/12/2021 21h09Atualizada em 07/12/2021 02h17

Responda rápido, torcedor são-paulino, que tipo de ano você prefere para teu time? 2020 ou 2021?

Vamos lá, aos fatos. Em 2020, o São Paulo deu vexame no Paulista (aquela derrota para o Mirassol), não passou de fase na Libertadores (o grupo era duro, com River e LDU, mas teve a derrota para o Binacional), avançou na Copa do Brasil até a semifinal (eliminado pela retranca do Grêmio de Renato Gaúcho no finalzinho do ano) e liderou boa parte do Brasileirão, virando o ano com sete pontos de vantagem.

Aí acabou o mandato do odiado Leco. Entrou Júlio Casares. Já demitiu de cara o diretor de futebol e começou a promover mudanças no departamento de futebol, pedindo para Raí continuar, mantendo Diniz, mas mexendo em outras partes da estrutura. Tirando a paz interna, quebrando a química.

Em 2021: houve o derretimento no Brasileiro e o título se foi, mas teve vaga direta na Libertadores. No Paulista, veio o título que tirou o São Paulo da fila de nove anos. Na Copa do Brasil, eliminação constrangedora diante do Fortaleza. Na Libertadores, um campanha melhor que a do ano anterior, chegando às quartas de final e sendo eliminado pelo campeão —o Palmeiras, que nunca havia tirado o São Paulo de uma Libertadores. E no Brasileiro? Uma campanha ridícula. Ruim desde o início, com flerte constante com a zona de rebaixamento, nunca na página de cima da tabela e se livrando do que seria a maior vergonha da história do clube a três dias do fim do campeonato.

Com os 3 a 1 sobre o Juventude, o São Paulo está livre do rebaixamento. Finalmente. Ainda tem uma remota chance de chegar à Pré-Libertadores: precisa vencer o América, em Minas, torcer para o Ceará não ganhar do Palmeiras (no Allianz), para o Inter não vencer o Red Bull Bragantino (em Bragança), para o Santos não vencer o Cuiabá (na Vila Belmiro) e para o Atlético-GO não vencer o Flamengo. Caso o Dragão empate com o Rubro-Negro, o São Paulo precisará vencer seu jogo marcando pelo menos um gol a mais que o clube goiano.

O torcedor pode até responder que 2021 foi muito melhor do que 2020, porque teve o título paulista. Eu entendo. Não é possível julgar sentimentos. Um título é sempre um título, ainda mais em cima do Palmeiras.

Mas, para um clube do tamanho do São Paulo, que até outro dia se autointitulava "soberano" e tirava sarro de clubes vizinhos que "só ganhavam Copinha e Paulistinha", será que dá para se alegrar com um ano assim? Será que uma conquista estadual vale mais do que um Brasileiro consistente, disputando título, sendo protagonista, com exposição positiva e classificação natural para o torneio mais importante do continente?

Quem administra o clube não pode atuar, pensar e sentir somente como torcedor. Precisa pensar, planejar, calcular. E, para a instituição São Paulo, um título paulista não pode compensar o que veio depois: um Brasileiro ridículo perto do de 2020, quando, com elenco pior, o clube ficou muito perto do título que não vê há 13 anos.

Isso sem falar no tamanho do prejuízo financeiro que significa ficar fora da Libertadores, ainda mais com tantas vagas à disposição.

A nova presidência do São Paulo pode ter um mandato brilhante daqui em diante. Mas fez tudo errado na parte esportiva em 2021. Não poderia ter mexido em nada no futebol até o fim do Brasileiro 2020. Não deveria ter emendado as temporadas 20-21. Gerenciou mal o caso Daniel Alves. Contratou de forma questionável. Trocou de técnicos sem consistência nas decisões. E possivelmente vai ter de trocar de novo, porque Rogério Ceni indica que não quer ficar para um ano sem Libertadores e sem qualificação do elenco.

Rifaram 2021 e 2022 em nome de um título que, no longo prazo, é mais motivo de gozação do que de orgulho. Vocês acham que em 2023 alguém vai lembrar do "Paulistinha" de 21 que só o São Paulo jogou ou vão falar de 15 anos sem títulos importantes?

A torcida gritou "time sem vergonha" ao final da partida. Havia alguns aplausos, porque o jogo contra o Juventude foi, de fato, bom, misturados com vaias. Mais do que o time, o ano do São Paulo é que foi sem vergonha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL