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Julio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gomes: Arbitragens confusas e VAR 'à brasileira' marcam rodada da Champions

Antoine Griezmann (Atletico de Madri) reage ao tomar cartão vermelho do árbitro Daniel Siebert após acertar Firmino (Liverpool) durante o jogo pela Liga dos Campeões - 19/10-2021 - David Ramos/Getty Images
Antoine Griezmann (Atletico de Madri) reage ao tomar cartão vermelho do árbitro Daniel Siebert após acertar Firmino (Liverpool) durante o jogo pela Liga dos Campeões - 19/10-2021 Imagem: David Ramos/Getty Images
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

19/10/2021 18h58

Sabem o VAR brasileiro? Aquele que chama os árbitros de campo a cada momento para "reapitar" e "reinterpretar" as partidas? Pois é, infelizmente ele apareceu em outro lugar: na Europa. E comprometeu dois jogos da rodada desta terça-feira, na Liga dos Campeões da Europa.

Geralmente, as ligas europeias têm árbitros empoderados em campo e que seguem fazendo o trabalho deles, sem a "ameaça" constante de outro árbitro querendo corrigi-los, vendo o futebol em câmera lenta e procurando pelo em ovo.

A arbitragem foi muito contestada pelo Atlético de Madrid, que perdeu em casa por 3 a 2 para o Liverpool, em casa, no melhor jogo da rodada. E também teve um papel importante na vitória dramática - e injusta - do PSG sobre o RB Leipzig, também por 3 a 2, em Paris.

O que mais incomoda aqui é o exagero de interferências. A arbitragem europeia é fundamental para a qualidade de jogo, pois é menos permissiva e deixa o jogo correr. São menos faltinhas e, também importante, menos reclamações. A autoridade é respeitada, assim como o dinamismo do esporte. Se o estilo de arbitragem fosse diferente no Brasil, podem estar certos: os jogos seriam melhores.

Mas hoje, na Champions League, vimos várias interferências ou não interferências que fizeram com que critérios diferentes fossem aplicados. Este é o problema. Se o VAR resolve chamar um árbitro para um lance interpretativo, ele precisa chamar sempre (o que é péssimo, mas também é péssimo usar "dois pesos, duas medidas"). O ideal é não chamar, somente para lances objetivos e muito, muito, muito claros, sem margem para debate.

O jogo entre Atlético e Liverpool foi simplesmente espetacular. Nos primeiros 15 minutos, o Liverpool destroçou o Atlético, foi um vendaval e meteu dois gols. Mas o Atlético acalmou, se encontrou em campo, passou a jogar bem e foi buscar o empate, com dois gols de Griezmann.

No primeiro deles, o chute de Griezmann passa por baixo de Lemar, que estava em posição de impedimento. Ali, já vimos que havia um VAR intervencionista em ação, pois o árbitro demorou bastante para confirmar o gol. No Brasil, possivelmente seria invalidado. Eu gosto da decisão tomada em Madri. O jogador está em impedimento, mas não "interfere" em nada, a bola estava já cruzando a linha do gol. Arbitrar é compreender, não apenas ficar tratando das regras como algo frio e sem margem para interpretações.

No segundo tempo, Griezmann tenta alcançar uma bola e acerta o pé na orelha de Firmino. O árbitro alemão Daniel Siebert mostra vermelho direto. Eu não gosto da decisão. Aqui na América do Sul, tem sido dado vermelho para este lance - geralmente, depois de intervenções do VAR. É o tal futebol de câmera lenta. De qualquer maneira, apesar de o amarelo ficar de bom tamanho, é respeitável a decisão do árbitro de campo.

No entanto, houve um lance quase idêntico em Porto 1 x 0 Milan. Ibrahimovic tenta alcançar uma bola, levanta o pé e acerta a cabeça do rival involuntariamente. Em Portugal, a decisão foi de cartão amarelo, não vermelho. O árbitro também era alemão, vejam só, o experiente Felix Brych. E aí, Uefa? Não dá nem para alegar culturas diferentes de arbitragem. Quem acertou? Siebert ou Brych?

Voltando a Madri. Com um a mais, o Liverpool chega ao terceiro gol de pênalti - marcado no campo. Um lance de interpretação, em que o juiz vê Hermoso derrubar Jota com um tranco na área. Neste lance, o VAR não interfere (ótimo, não era o caso).

Logo depois, o árbitro dá pênalti para o Atlético de Madrid após um tranco inverso - Jota, na área, desloca Gimenez. Foi um empurrão suficiente para derrubar? Na minha opinião, não. Mas o que vale é o que o árbitro vê e marca em velocidade real. Neste lance, contrariando tudo o que vemos na Europa, o VAR, o alemão Bastian Dankert, interferiu, chamou o juiz para revisar o lance em câmera lenta e ele cancelou a marcação. Acho detestável a decisão do VAR. Lances de interpretação precisam ser respeitados.

Tenho certeza que a Uefa precisará se pronunciar sobre isso. E sobre a falta de critério para o pé alto de Griezmann, em Madri, versus o pé alto de Ibra, no Porto.

Em Paris, o primeiro gol do PSG sobre o RB Leipzig nasce de uma clara falta de Messi no campo de ataque. Desta jogada, saiu o contra ataque em velocidade e o gol marcado por Mbappé. O VAR não chama. Eu gosto. Foi falta? Sim, na minha opinião. Mas o árbitro italiano Marco Guida estava de frente para a jogada e não marcou, portanto não deve haver intervenção.

O lance do gol da virada do PSG, de pênalti convertido por Messi, saiu de um empurrão leve de Simakan sobre Mbappé, que se deixa cair na área. Eu não marcaria. O confuso italiano, que não viu falta de Messi no primeiro gol do Paris, viu neste.

Pouco depois, ele não vê falta sobre Hakimi na área, em um lance de pura interpretação, em que Gvardiol, do Leipzig, rela na bola antes de derrubar o lateral do PSG. Neste caso, o VAR, o italiano Fabio Maresca, resolveu chamar e recomendar a marcação do pênalti - Mbappé acabou chutando por cima. Mais um lance em que a interpretação do campo foi sobreposta pela opinião de alguém vendo o jogo em câmera lenta.

Enfim. Podemos debater o quanto quisermos os lances. Os pênaltis marcados para o PSG, um sem VAR, outro com, o primeiro gol do time de Paris, a expulsão de Griezmann e o amarelo para Ibra, o pênalti dado e não revisto para o Liverpool, o dado e retirado para o Atleti. Todos estes são lances de interpretação. Em que, na Europa, costuma valer o que se decide no campo e com critérios claros. E não com reinterpretações chamadas pelo VAR.

Uma pena. Espero que não vire moda. Aqui no Brasil, o jogo tem sido estragado por tantas intervenções, e os árbitros estão terceirizando suas decisões. Que a Uefa não deixe o mesmo acontecer por lá.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL