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Julio Gomes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ultraconservador, Portugal cumpriu triste e previsível roteiro na Eurocopa

Fernando Santos, técnico de Portugal, durante o duelo com o Bélgica, pela Eurocopa 2021 - Fran Santiago - UEFA/UEFA via Getty Images
Fernando Santos, técnico de Portugal, durante o duelo com o Bélgica, pela Eurocopa 2021 Imagem: Fran Santiago - UEFA/UEFA via Getty Images
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Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

28/06/2021 04h00

O sonho do bicampeonato europeu para Portugal acabou ontem, em Sevilha, após a derrota por 1 a 0 diante da Bélgica. A seleção belga, algoz do Brasil na última Copa, avança para as quartas de final e enfrentará a Itália.

A Bélgica, todos sabem, sempre foi uma candidata a título. Para o esperado jogo contra os italianos, a grande interrogação é a condição física de De Bruyne, que chegou baleado à Eurocopa e saiu de campo no início do segundo tempo da partida de ontem.

Depois de um jogo equilibrado no primeiro tempo, sem grandes chances para nenhum dos lados, a Bélgica conseguiu um gol com Thorgan Hazard, já no finalzinho. No segundo tempo, Portugal ficou com a bola o tempo todo, mas jogou de forma extremamente lenta, abusando dos chuveirinhos na área. Só acelerou na reta final, na hora do abafa.

É verdade eu Courtois fez uma grande defesa após um cabeceio à queima-roupa e que Raphael Guerreiro acertou a trave. O jogo poderia, sim, ter acabado empatado. Até porque a Bélgica abdicou completamente do duelo no segundo tempo e ficou só se defendendo.

Mas o que impressionou foi a covardia de Fernando Santos, técnico de Portugal. Todas as cinco alterações foram feitas no segundo tempo e todas no estilo "seis por meia dúzia". Sai atacante, entra atacante. Sai meia, entra meia. Sai volante, entra volante. Em compensação, o lateral direito Dalot, um jogador de pouca potência ofensiva e que já estava amarelado, ficou lá o tempo inteiro em campo.

Há poucas críticas a Fernando Santos na mídia portuguesa - o mesmo não se pode dizer ao passar os olhos pelos comentários feitos pelos leitores nas páginas eletrônicas esportivas do país.

Talvez o título da Euro-2016, seguido da Liga das Nações, tenha dado uma espécie de "eternidade" a Fernando Santos no cargo. Mas o fato é que, hoje, Portugal tem material humano para fazer muito mais. E não só em termos de jogadores. Graças à maneira como trata o futebol, como ciência, objeto de estudos, Portugal tem uma excelente geração de treinadores, espalhados mundo afora. Tem para todos os gostos e de todos os estilos. Não há sentido algum ficar com Fernando Santos até a Copa do Mundo do ano que vem. É desperdiçar a última grande competição de Cristiano Ronaldo.

Contra a Bélgica, Fernando Santos mostrou que faltam coragem e criatividade. Aliás, já havia demonstrado o mesmo ao longo de toda a Eurocopa e também no Mundial da Rússia, três anos atrás.

No fim, Portugal despede-se do torneio com uma vitória apertada sobre a Hungria (3 a 0, mas com primeiro gol aos 39min do segundo tempo); uma derrota para a Alemanha em que taticamente a seleção lusa foi atropelada e demorou dois terços do jogo para identificar o problema; um empate contra a França marcando dois gols de pênalti e em um jogo em que os franceses passaram os 20 minutos finais tocando a bola de lado; e a derrota para a Bélgica, sem que tenha sido feita uma substituição sequer com mais ousadia para tentar mudar o jogo.

Santos apoia-se nas estatísticas. "Foram 29 finalizações a 6", ele diz. Segundo o Sofascore, foram 23 a 6. Sim, Portugal foi para o abafa. Mas poucas destas finalizações foram resultado de um volume de jogo consistente, com criação de jogadas. "Faltou sorte", disseram alguns jogadores.

Sim, como eu já disse, o jogo poderia ter acabado empatado em 1 a 1. Seria o resultado mais justo, até. Mas isso não quer dizer que Portugal tenha feito uma partida à altura do talento que tem à disposição. É um time cheio de jogador bom e que segue fazendo o arroz com feijão. Poucas variações, pouca imposição, poucas ideias.

Disso tudo já se falava antes do torneio. Que, apesar de Fernando Santos ter sido o técnico da maior glória do futebol do país, em 2016, era a hora de olhar para frente. Era um técnico conservador, que apostava em nomes que não estavam desempenhando tão bem nos clubes e que tinha dificuldades para encontrar caminhos. Foi exatamente o que se viu ao longo da Eurocopa. Um monte de gente pode levantar a plaquinha do "eu já sabia".

Se não fosse contra a Bélgica, seria contra a Itália. Portugal perderia esta Eurocopa, como perdeu. O subaproveitamento de talento é claro. Uma pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL