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Julio Gomes

Santos é o maior da história. Mas não podemos glamourizar o absurdo

(Foto: Ivan Storti/Santos FC) - (Foto: Ivan Storti/Santos FC)
(Foto: Ivan Storti/Santos FC) Imagem: (Foto: Ivan Storti/Santos FC)
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/01/2021 18h25

O Santos é o clube mais importante da história do futebol brasileiro. Eu sei que a frase vai incomodar muita gente (todos os torcedores de outros clubes), mas essa é a realidade. É óbvio que tem a ver com o passado, mas não só isso.

O Santos é o clube de Pelé, o maior de todos. O Santos foi o grande dominador da década em que o Brasil foi o grande dominador. O Santos foi campeão de tudo. Nenhum co-irmão brasileiro ganhou mais Libertadores. O Santos tem torcida no Brasil inteiro, em todas as regiões. Em todo o planeta, aliás. É o clube brasileiro mais conhecido mundo afora. Por causa de Pelé, claro, mas não só. Não se esqueçam que Neymar, o brasileiro mais relevante e famoso da década, veio do Santos também. Passado e presente. E muitos caras importantes passaram por Europa e seleção entre um e outro.

Tem mais: nenhum clube grande brasileiro é menos odiado que o Santos. Isso se deve, a meu ver, pela ausência de um rival local. As rivalidades regionais foram a grandeza e serão a ruína de muitos clubes país afora. A rivalidade do Santos é muito menos intensa com os clubes da capital paulista do que a existente entre o trio-de-ferro. Façam uma pesquisa aqui em São Paulo e descobriremos facilmente que a esmagadora maioria de corintianos e são-paulinos torcerão pelo Santos na final do dia 30. Isso é bom para o clube. Não ser rejeitado não pode ser algo ruim.

Nenhum clube do Brasil tem tantos "OKs" no check list de grandeza. E vou dizer mais: o Boca Juniors também não tem. Se serve de tira-teima entre eles, o Santos é o único clube brasileiro que mais eliminou do que foi eliminado pelo Boca (mínimo de dois confrontos). Na Europa, o Boca é conhecidíssimo. Assim como o River. Um vai junto com o outro. O Santos caminha sozinho.

Dito tudo isso...

Não é possível que fiquemos glamourizando a penúria. Jogadores não recebem salários e são heróis? Enaltecer o "comprometimento" dos caras acaba tendo um efeito duplo. Porque ao mesmo tempo é como se estivéssemos metendo o pau em quem não aceita jogar sem receber.

Vejam o Cruzeiro. Perde para o lanterna da Série B e logo chovem as insinuações ou críticas diretas à suposta falta de empenho. Como assim vamos exigir empenho de quem trabalha sem receber, em vez de falar dos verdadeiros responsáveis?

O Santos vive administrações calamitosas há anos. Presidentes e dirigentes que emprestam dinheiro ao clube, o que é sempre uma temeridade. Jogadores saindo na justiça, a tentativa de contratar um condenado por estupro e por aí vai. Em tempos em que alguns grandes clubes brasileiros vão encontrando formas de fazer dinheiro, vão entendendo o negócio futebol como ele é, o Santos parece estacionado.

"Ah, o Santos está na final da Libertadores e você aí falando abobrinhas".

Eu não sou um resultadista. Desconfie de qualquer pessoa que falar que a fórmula para chegar na final da Libertadores é trabalhar mal, de forma temerosa e irresponsável, e deixar o clube cheio de dívidas. Você pode cometer um monte de erros e, ainda assim, chegar no lugar que quer chegar. Mas se você fizer isso 100 vezes, dará errado umas 90. Quem faz as coisas certas, aumenta as chances de sucesso.

O Santos na final do continente tem a ver com um monte de coisas, menos planejamento. Um grande amigo meu, santista, me confidenciou hoje que tem dificuldades para escalar o time atual.

O torcedor tem que comemorar e estar orgulhoso de sua camisa. Grato aos jogadores, que estão fazendo o que talvez nem devessem ter aceitado. Feliz pela mística, pela usina de craques que é a Vila, pela água mágica do Itororó. Mas nós, que olhamos para o cenário de forma desapaixonada, não podemos deixar de denunciar os absurdos administrativos que marcaram a instituição nos últimos anos. E muito menos glamourizar absurdos.

Que profissionais tenham colocado o clube na final da Libertadores mesmo convivendo com atrasos, falta de pagamento e coisas do tipo não é algo para ser celebrado. E, sim, denunciado e lamentado.