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Julio Gomes


Julio Gomes

Até quando vale o Atlético de Madrid investir em Simeone e no 'cholismo'?

Denis Doyle/Getty Images
Imagem: Denis Doyle/Getty Images
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

14/08/2020 04h00

O contrato de Diego Simeone com o Atlético de Madrid, renovado no ano passado, vai até 2022 - mais duas temporadas. Segundo alguns meios europeus, o argentino é o técnico mais bem pago do mundo, à frente até de Guardiola e Klopp. Depois da eliminação de ontem na Champions League, não dá para ignorar o questionamento: até quando o Atlético vai investir no "cholismo"?

Vejam, antes de entrar no debate, algumas premissas são importantes de serem ressaltadas. Diego Simeone é o ser humano mais importante da história do Atlético. É o técnico que fez o clube grande de novo, campeão de novo, adquirir um status que nunca teve na Europa, atingir um patamar financeiro que permite investimentos com os quais o torcedor nem sonhava dez anos atrás.

Esse mérito ninguém vai poder tirar de Simeone.

Mas até quando?

O cholismo é sofrimento. É entrega. É a mentalidade de azarão para buscar a motivação de derrubar gigantes. É treino, repetição, concentração, hierarquia.

O problema do cholismo é que falta jogo ofensivo aí. Falta um pouquinho de anarquia. Falta um pouquinho de amor pelo improvável. Falta um pouquinho de conexão com outro tipo de beleza que o futebol pode proporcionar.

No "pacote Simeone", está eliminar o Liverpool em Anfield de forma histórica. No mesmo pacote, está deixar João Félix no banco e ser eliminado pelo RB Leipzig quando se tem uma chance incrível de chegar a outra final de Champions.

Será que os jogadores mais talentosos gostam do cholismo? Porque uma coisa é um sofrimento eventual. Outra é passar o ano inteiro sofrendo. Chega uma hora que cansa.

O modo de ver e sentir futebol de Simeone elevou o Atlético. Mas agora, com o poder de fogo do clube, o mesmo cholismo irá levar a outro salto? Até onde vai a gratidão? Até que ponto o discurso de Simeone irá beneficiar o clube? Ou terá o discurso ficado pequeno?

Entre 2014 e 2016, os anos em que o Atlético foi à final da Champions, houve um movimento de evolução futebolística ali. Jogadores mais técnicos, jogo jogado, não só batalhado ou defendido. Mas não houve sequência, houve um retorno à raiz, ao futebol mais duro original. Diego Costa, que estava em 2014, está de volta, por exemplo. Eu não consigo ver Simeone alterar seu estilo, transformar-se em um técnico mais abrangente.

O cholismo manterá o Atlético sempre competitivo. Mas existe um desgaste nítido depois de quase nove anos.

Quem toma as decisões no clube vai ter que se perguntar o que quer do Atlético. A Liga do clube tem Real Madrid e Barcelona. Na Europa, além dos dois, tem Bayern, tem Juventus, tem Paris, tem os ingleses todos. O Atlético quer batalhar de igual para igual dentro desse grupo para valer ou ser o eterno azarão?

Outra coisa é pensar: será que o Atlético está no teto? Será que dá para entrar nesse grupo sem o cholismo ou será que não dá para ir além e nós é que pedimos o impossível?

A derrota para o Leipzig, em Lisboa, precisa minimamente gerar a busca por estas respostas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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