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Julio Gomes


Espanha nem voltou com o futebol e já quer colocar carro na frente dos bois

Camp Nou, em Barcelona - German Parga/FCBarcelona
Camp Nou, em Barcelona Imagem: German Parga/FCBarcelona
Julio Gomes

Julio Gomes é jornalista esportivo desde que nasceu. Mas ganha para isso desde 1998, quando começou a carreira no UOL, onde foi editor de Esporte e trabalhou até 2003. Viveu por mais de 5 anos na Europa - a maior parte do tempo em Madrid, mas também em Londres, Paris e Lisboa. Neste período, estudou, foi correspondente da TV e Rádio Bandeirantes e comentarista do Canal+ espanhol, entre outras publicações europeias. Após a volta para a terrinha natal, foi editor-chefe de mídias digitais e comentarista da ESPN e também editor-chefe da BBC Brasil. Já cobriu cinco Copas do Mundo e, desde 2013, está de volta à primeira das casas.

10/06/2020 09h57

Resumo da notícia

  • La Liga volta a ser disputada na quinta-feira
  • Governo pode autorizar público nos estádios a partir do dia 22
  • Não seria melhor voltar com calma e deixar público para a próxima temporada?

O futebol espanhol volta amanhã. Na quinta-feira, com o dérbi sevilhano entre Sevilla e Bétis, La Liga será retomada. Das grandes ligas europeias, é a que mais vai despertar interesse, pois a disputa está apertada entre Barcelona e Real Madrid pelo título.

O início será com portões fechados. Mas, a partir de 22 de junho, o governo espanhol quer que os jogos já tenham público, com capacidade de 30% dos estádios. Me parece uma decisão para lá de precipitada.

Claro que meu termo de comparação são outros campeonatos e países europeus, não os malucos que tomam conta do Brasil e já preparam a volta do futebol no pico da pandemia em nosso país. Na Europa, o coronavírus está cada vez mais controlado, mata menos gente, os protocolos de distanciamento estão ficando arraigados na sociedade. Lá, há um plano. Aqui, não.

Mesmo lá, no entanto, não sabem ainda as consequências da reabertura, se haverá segunda onda de contágio, se haverá mais mortes.

A ideia de estádios com capacidade reduzida é boa, no meu ponto de vista. Mas essas são regras ainda a serem trabalhadas, pensadas, debatidas. Esta deveria ser uma solução para a temporada que vem, a 20/21. Na melhor das hipóteses, olhando tudo o que está acontecendo nas ligas domésticas, a Uefa poderia implementar algo nesse sentido na retomada da Champions League, em agosto.

Mas abrir estádios já agora em junho?

E mais. Cada Comunidade Autônoma (os Estados) poderá tomar uma posição diferente. Então um time pode ser autorizado a jogar com torcida, enquanto outro não. O que vai gerar disparidade técnica e reclamações. Já estamos vendo estatisticamente, pela Bundesliga, como o fator casa deixou de ser fator com estádios vazios.

Oras, a Espanha ainda nem voltou com os jogos! Na Alemanha, está tudo correndo bem até agora. Mas, convenhamos, os alemães são bons para caramba nessa coisa de protocolos, seguir regras, etc. Na Espanha, as coisas vão andar igualmente nos trilhos? E na Inglaterra, na Itália, etc?

O melhor a fazer seria concluir La Liga com portões fechados, sem grandes sobressaltos, fazer de tudo para preservar jogadores e pessoas envolvidas em cada partida. Está tudo certo? Protocolos redondinhos? Vírus contido? OK, maravilha, a partir de setembro ou outubro, quando começar a próxima temporada, podemos conversar sobre público. Talvez escalonar, começar com 10% da capacidade, observar se as pessoas respeitam as distâncias, qual a capacidade das forças de segurança de monitorar isso, a reação do público se confrontado, monitorar temperaturas, enfim, tudo isso. E depois ir ampliando.

Por que não esperar a Alemanha, que é quem está mostrando os caminhos? Ou a própria Uefa.

É capaz que em duas semanas a gente veja 30 mil pessoas entrando no Camp Nou (30% da capacidade do estádio). Quem já foi a jogo na Europa, sabe como é. Imaginem o metrô, as ruas próximas, as aglomerações. São 30 mil pessoas, oras bolas.

É um pouco inacreditável, depois de tudo o que aconteceu na Espanha, depois de tantas mortes, de tanta tristeza.

Julio Gomes