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Flavio Gomes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aos 50, Rubinho segue sendo o melhor na era pós-Senna

Barrichello ao lado de Ricardo Maurício e Matías Rossi no pódio da Stock - Luís França/P1 Media Relations
Barrichello ao lado de Ricardo Maurício e Matías Rossi no pódio da Stock Imagem: Luís França/P1 Media Relations
Flavio Gomes

Jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. "Um multimídia de araque", diz ele. "Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo."

Colunista do UOL

16/05/2022 04h00

Esta é parte da versão online da edição deste domingo (15/5) da newsletter de Flavio Gomes. Para assinar o boletim e ter acesso ao conteúdo completo, clique aqui.

Rubens Barrichello completa 50 anos no próximo dia 23. Ontem, foi ao pódio duas vezes na rodada dupla da Stock Car no Velocittà, paradisíaco autódromo no interior de São Paulo. Ensaiou alguns passos da sua sambadinha, um gestual que resvalava no constrangedor nos tempos de F-1, mas que hoje é só mais uma patacoada em tempos de tantas. Pelo menos, até onde sei, não virou dancinha de TikTok. Está no lucro absoluto. Viva a sambadinha.

Quando deixou a F-1, Rubinho não teve uma despedida à altura de sua trajetória. Esperava arrumar um contrato para a temporada seguinte, e por isso ninguém lhe disse adeus. Mas aquele GP do Brasil, realizado no dia 27 de novembro de 2011, acabaria sendo o último dos 322 que disputou em 19 anos na categoria. Terminou a corrida em 14º lugar, uma posição à frente de Michael Schumacher, da Mercedes, e uma atrás de Sergio Pérez, da Sauber. Dos 24 pilotos que dividiram o grid com ele há quase 11 anos, cinco continuam por lá — além de Pérez, hoje na Red Bull, continuam na lida Daniel Ricciardo (McLaren), Sebastian Vettel (Aston Martin), Fernando Alonso (Alpine) e Lewis Hamilton (Mercedes).

Não apareceu carro nenhum para ele em 2012. Sem tempo de dar um tchau a quem o acompanhou por quase duas décadas, Rubens foi parar na Indy convidado pelo amigo Tony Kanaan. Não deu muito certo. No final de 2012, aceitou outro convite, agora da Stock Car, para participar das corridas de bate-bate que preenchiam o calendário brasileiro desde 1979 com altos e baixos. Naquele momento, mais baixos do que altos.

Rubinho, tese que sempre defendi, mudou a Stock. Verbo mais apropriado: civilizou a Stock. Do alto de seus 19 anos de F-1, um de Indy, mais três de categorias de base na Europa, indignou-se com a pancadaria promovida por uma cambada de playboys bem patrocinados que faziam da Stock uma espécie de rodeio sobre rodas. O nível de pilotagem — que não era unanimemente ruim, mas esbarrava na selvageria — se aprimorou. Os caras olhavam para o lado e viam um sujeito que trazia no currículo um título da F- Opel, um da F-3 Inglesa, um terceiro lugar na F-3000, dois vice-campeonatos na F-1, quatro anos de Jordan, três de Stewart, seis de Ferrari, um de Brawn, dois de Williams, 11 vitórias, 14 poles, 68 pódios. Não dava para continuar dando na porta uns dos outros em companhia tão luxuosa.

Depois de Barrichello, que estreou na F-1 em 1993, 14 pilotos brasileiros largaram em pelo menos um GP na maior categoria do automobilismo mundial. Todos eles forjados numa era que podemos chamar de pós-Senna, morto em 1994. A lista merece citação, por ordem alfabética de sobrenome: Enrique Bernoldi, Luciano Burti, Cristiano da Matta, Lucas di Grassi, Pedro Paulo Diniz, Pietro Fittipaldi, Tarso Marques, Felipe Massa, Felipe Nasr, Nelson Piquet Jr., Antonio Pizzonia, Ricardo Rosset, Bruno Senna e Ricardo Zonta.

Nenhum deles chegou aos 50 anos, ainda. Alguns continuam correndo. Três deles — Nelsinho, Zonta e Massa — estavam no Velocittà no fim de semana compartilhando o mesmo grid da Stock. Zonta venceu uma das provas da rodada dupla, inclusive. Mas nenhum conseguiu ser campeão da categoria brasileira. Rubens, sim — em 2014. Curiosidade: na preliminar da Fórmula 4, série que inaugurou sua primeira temporada na mesma pista do interior paulista, havia outros dois Barrichellos: seu filho Fernando, de alcunha Fefo, e o sobrinho Felipe, que corre com o sobrenome do pai, Bartz.

Vinte e oito anos depois da morte de Ayrton Senna, não seria exagero dizer que Barrichello segue sendo aquilo em que se transformou depois do fim de semana trágico de Ímola em 1994: o principal nome do automobilismo brasileiro. Sim, eu sei que Massa teve uma carreira até parecida na F-1. Mas depois que deixou a categoria, não se manteve competitivo nas plagas por onde se aventurou — a saber, a Fórmula E, primeiro, e a própria Stock, agora. E não, não estou me esquecendo de Gil de Ferran, Hélio Castroneves, Tony Kanaan, Cristiano da Matta, João Paulo de Oliveira, Pipo Derani, Augusto Farfus, Lucas di Grassi, vencedores em seus redutos, mas de carreiras menos longevas e sólidas. Helinho, com suas quatro vitórias em Indianápolis, talvez seja aquele que mais se aproxima daquilo que Rubinho realizou e ainda realiza.

Alguns desses moços já pararam de correr, uma hora os outros vão pendurar seus capacetes. Duvido que cheguem aos 50 em atividade. Não por alguma limitação física ou falta de carro para dirigir. Por esgotamento, mesmo; tudo acaba, a vida cobra outros rumos, é assim.

Dia 23, eu dizia lá em cima, Barrichello chega aos 50. Conto uma breve historinha para terminar. Há alguns anos, dei um Google para pesquisar a sigla M.M.D.C., dos ditos mártires do Movimento Constitucionalista de São Paulo, de 1932. Foram quatro jovens mortos pelas forças federais de Getúlio Vargas num dia 23 de maio, e a data virou nome de avenida na cidade. Me lembrava de Martins, Dráusio e Camargo, mas me faltava Miragaia, o segundo M, que por alguma razão fora apagado da memória trazida dos bancos escolares. Nada demais, apenas um Google para lembrar um nome. A gente faz isso toda hora.

Datilografei "23 de maio" no sistema de busca e entre os links sugeridos pelo Grande Irmão Digital, além daquele que me sanou a dúvida trazendo à lembrança o pobre Euclides Bueno Miragaia, que trabalhava no cartório do tio e foi alvejado na rua Barão de Itapetininga, saltou à tela "Dia da Tartaruga - 23 de maio". Está aqui a página que não me deixa mentir: https://www.calendarr.com/brasil/dia-da-tartaruga/. Puta merda, disse a mim mesmo. É o aniversário do Rubinho.

Não tenho o hábito de decorar datas de aniversário de quase ninguém, mas o do Rubinho eu lembrava por conta de uma incrível coincidência na sua família: Rubão, o pai, também faz anos em 23 de maio; e a mãe, dona Idely, nasceu no mesmo dia e mês que a irmã, Renata. Pai e filho nasceram no mesmo dia; mãe e filha, também — não sei, no entanto, o dia do aniversário de dona Idely e Renata. Por isso guardei o 23 de maio. Que, além do mais, quase sempre caía no fim de semana do GP de Mônaco e sempre rolava um bolinho no paddock.

Um piloto fazer aniversário no Dia da Tartaruga é uma daquelas coisas engraçadas que a gente não pode deixar de contar para alguém. Como, por exemplo, o nome completo do piloto português Tiago Monteiro, que correu na F-1 em 2005 e 2006, registrado na certidão de nascimento como Tiago Vagaroso da Costa Monteiro. Um dia o entrevistei para uma rádio onde trabalhava.

"Tiago, você se chama mesmo Vagaroso?", perguntei. Ele soltou uma gargalhada e, com seu adorável sotaque lusitano, confirmou: "Pois, como pode um piloto se chamar Vagaroso? Mas é meu nome, sim!". E seguimos o papo e nada de mais grave aconteceu à carreira do lusitano por ter Vagaroso no nome.

A história do Dia da Tartaruga cair no mesmo dia do aniversário de Rubinho eu mencionei no ar, na TV ou na rádio, ou em ambas, e também ficou por isso mesmo. É o tipo de curiosidade que não se omite, ainda que possa deixar o personagem em questão incomodado. Paciência. Tiago não deu a menor bola para a descoberta do Vagaroso em seu nome, e espero que Barrichello também não tenha se importado muito. Não tem a menor importância. Mas, curioso, um dia entrei em contato com a fundadora da American Tortoise Rescue, uma organização sediada nos EUA que se ocupa da preservação das tartarugas. Perguntei de onde ela tinha tirado aquela data, se alguma tartaruga famosa tinha morrido, ou nascido, ou algo parecido. "Não, é meu aniversário, mesmo. Apenas escolhi a data e registrei", esclareceu a simpática tartarugóloga. Assunto encerrado.

A última das 101 vitórias brasileiras na F-1 foi conquistada por Barrichello em 2009. Aconteceu em Monza, na Itália. Ali, pode-se dizer, acabou a primeira longa e vitoriosa jornada do Brasil na categoria. Não se sabe se outras virão. O que não parece terminar é a vontade de Barrichello de sentar num automóvel e acelerar.

23 de maio poderia ser o Dia do Piloto Brasileiro. Bem melhor que Dia da Tartaruga.

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Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, Rubens Barrichello foi convidado a correr na Stock Car ao final de 2012, e não de 2013. A informação já foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL