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"Volta para a senzala, Marinho!" Ops, desculpa, me exaltei

Marinho chora em vídeo após comentarista dizer que o jogador estava na senzala - Reprodução/Instagram
Marinho chora em vídeo após comentarista dizer que o jogador estava na senzala Imagem: Reprodução/Instagram
Diogo Silva

Diogo Silva foi campeão mundial universitário, medalhista de ouro dos Jogos Pan-Americanos e participou dos Jogos Olímpicos de Atenas-2004 e Londres-2012 no taekwondo. Hoje, faz parte do grupo de rap Senzala Hi-Tech.

05/08/2020 04h00

Na última quinta-feira (30), Marinho foi ofendido publicamente pelo comentarista esportivo Fábio Benedetti, na rádio "Energia 97FM". O triste episódio ocorreu após o atacante do Santos ser expulso na partida contra a Ponte Preta, pelas quartas de final do Campeonato Paulista.

O caso tornou-se público porque Fábio, que participava da transmissão ao vivo do jogo, deixou escapar para inúmeros espectadores aquilo que está introjetado no homem branco brasileiro: o racismo.

Marinho não foi só ofendido, ele foi estigmatizado, chamado de burro publicamente e remetido à violência dos tempos da senzala. Há anos no futebol o erro pode custar a dignidade, o emprego, o esquecimento e até a própria vida.

Este episódio acontece em meio a uma grande onda de protestos contra o racismo pelo mundo. Na retomada da NBA, depois da paralisação por conta da pandemia, os jogadores estão se ajoelhando e dando os braços durante o hino norte-americano para clamar pela ainda latente discriminação. O hexacampeão Lewis Hamilton também tem registrado a sua indignação a cada etapa da Fórmula 1.

Isto tudo acontece no momento em que testemunhamos o lançamento de um álbum/filme em homenagem à população negra, intitulado Black is King (Negro é Rei), protagonizado pela cantora Beyoncé, maior estrela pop dos últimos tempos.

Seguindo na contramão, parece que a única coisa que pega mesmo no Brasil é a Covid-19.

Com toda a movimentação mundial contra o racismo, articulações de atletas, pesquisadores, artistas, jornalistas, intelectuais e ativistas a favor de uma mudança estrutural nos espaços de trabalho, com mais pluralidade de cores e opiniões em nosso país, ainda estamos longe de solucionar este problema.

Há anos o futebol tem sido um dos ambientes esportivos mais hostis para a população negra. Justo a modalidade que, assim como o atletismo, o boxe e o basquete, possui majoritariamente o negro como protagonista.

De acordo com o Observatório da Discriminação Racial no Futebol, houve 56 ocorrências de injúria racial em 2019 neste meio, aumento de 27,2% em relação ao ano anterior.

Mesmo sendo difícil entender o que leva alguém a sair da sua casa, participar de um programa esportivo e expressar sua opinião de maneira irresponsável, também precisamos refletir sobre a indústria da comunicação que sempre foi omissa a tais violências, recorrentes e cotidianas.

Como comentarista esportivo, Fábio Benedetti apenas escancarou o problema e me fez perguntar: Onde estão os comentaristas esportivos negros? Podemos observar que na grande maioria dos programas esportivos da televisão brasileira, do rádio e da internet, a diversidade e presença negra é quase inexistente.

Em resposta à grande exclusão, foi criado no mês de julho o Ubuntu Esporte Clube, primeiro podcast esportivo feito por jornalistas pretos e pretas em busca de maior protagonismo e representatividade.

A população negra no futebol brasileiro se encontra no trabalho braçal, no espaço onde é necessário fazer muita força. Para atravessar um campo correndo, ou dar uma arrancada de ponta a ponta na lateral, dividir, cabecear e chutar uma bola ao gol, é necessário ter muita aptidão física.

De acordo com a plataforma salario.com.br e dados oficiais do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), um jogador de futebol no mercado de trabalho brasileiro ganha em média R$ 4.920,58, para uma jornada de 43 horas semanais.

Em média, o jogador recebe a remuneração mensal de R$ 4.490,96. Com variações de R$ 1.200,00 a R$ 14.755,67, entre o piso e o teto, respectivamente — considerando profissionais com carteira assinada em regime CLT de todo o Brasil.

E nesse lugar de baixa remuneração e grande esforço, o negro é contratado, assim como nas obras de construção civil, nas patentes baixas do quartel, nos hotéis, nos estábulos... Mas nos cargos de chefia, gerencia, gestão e presidência, praticamente o público preto é inexistente ou é exceção.

O único dirigente negro no futebol brasileiro é Sebastião Salgado, conhecido como Tiãozinho. Em 120 anos da Ponte Preta, um dos times mais antigos do Brasil, Sebastião é o primeiro presidente negro da modalidade.

Observamos os pequenos avanços, mas ainda há muito a ser mudado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.