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Pergunta do milhão sobre Pelé teria sido feita a um homem?

Começo admitindo que não sei com que antecedência e como são definidas as perguntas do programa "Quem Quer Ser Um Milionário".

Mas confesso que uma coisa ficou me incomodando, depois de ler a notícia de que a jornalista Jullie Dutra vencera o inédito prêmio máximo, ao responder: Pelé foi campeão da Copa do Mundo de 1958 usando qual número na camisa? As opções: 10, 11, 17 e 18.

A minha reação: o quêeeeee? Essa é a pergunta do milhão? A diferença entre ter 500 mil reais a mais ou a menos? Não é possível. Com tantas fotos eternizadas do Rei, vestindo a icônica camisa 10, como é que deixam essa questão para o final?

Há quem diga que problematizo demais os acontecimentos. Eu digo que o mundo é que está cheio de problema, então, me deixem. Seja como for? Para mim, a pergunta chegou com aquele discreto aroma de machismo, fragrância quase imperceptível ao olfato masculino.

Antes de sair bradando que não teriam feito essa pergunta a um homem, resolvi olhar as questões anteriores, como Jullie chegara até ali. Será que era tudo meio fácil mesmo?

Alguns exemplos: Com qual autor Tarsila do Amaral foi casada? Qual foi primeira cidade brasileira que recebeu Dom João VI? Como é chamado triângulo formado por três lados diferentes? Castro Alves representou qual geração do romantismo brasileiro? (Confesso que "Condoreira" me pegou demais.) Em qual cidade norte-americana foi assinada a Carta das Nações Unidas em 1945? Quantas colunas verticais existem na tabela periódica? Como são chamadas as duas luas de marte?

Ou seja, um monte de coisa difícil. Que Jullie respondeu com tranquilidade e informações adicionais, ostentando um conhecimento impressionante e abrangente.

Sim, Jullie usou uma ligação para confirmar a resposta da camisa de Pelé, mas até aí, à beira do status de milionária, eu utilizaria qualquer recurso disponível, mesmo para responder "quanto é 2 + 2".

Pode ser acaso. Talvez a pergunta seja mais difícil do que parece a mim, habitante antiga do mundo do futebol e inepta em matéria de tabela periódica. Quiçá a intenção do programa não seja derrubar as pessoas no momento final, facilitando seu acesso a um milhão de reais — mas aí qual seria a graça?

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Como diria Maria da Graça Meneghel, tudo pode ser. Só basta acreditar. E a minha experiência me faz acreditar que ainda tem muita gente (mesmo bem intencionada) acreditando que mulher não entende de futebol.

Podem chamar de paranoia. Eu chamo de 20 anos de profissão.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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