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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Botafogo no Z4: uma boa dose de realidade brasileira para a SAF

Erison, do Botafogo, lamenta chance perdida durante duelo contra o Avaí - Thiago Ribeiro/AGIF
Erison, do Botafogo, lamenta chance perdida durante duelo contra o Avaí Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

14/06/2022 13h09

Depois da vitória do Botafogo sobre o Fortaleza, no longínquo mês de maio, John Textor deu uma entrevista emocionada à colega Gabriela Moreira, ainda no gramado do Nilton Santos. "Dizem que a Premier League é a maior Liga do mundo, mas lá não amam um clube como amam aqui. Eu tenho que mostrar esse amor para o mundo." Até um bandeirão ele agitou.

Achei bonito. E pensei: quanto tempo vai durar essa lua de mel entre SAF, gringos e aquilo a que convencionamos chamar de Brasil? Quanto tempo até que esse Brasil mostre ao John Textor como as coisas funcionam por essas bandas?

Quem sou eu para dizer que já acabou, mas o relacionamento está oficialmente em crise com a entrada do alvinegro na zona de rebaixamento, depois de quatro revezes seguidos. A realidade bateu à porta, lembrando aos envolvidos que mesmo com a melhor das intenções (e dos investimentos), ninguém muda da noite para o dia. Nem nosso maior amor.

Na derrota para o Goiás, também no Nilton Santos, que foi antes da derrota por goleada para o Palmeiras, a torcida, que vem comparecendo em grande número e fazendo lindas festas, esperou acabar a partida, mas deixou claro seu descontentamento com uma vaia retumbante.

Ontem, no 0x1 para o Avaí, foram menos pacientes. Gritaram "olé" quando o adversário tocava na bola e não aguardaram o apito final para despejar uma chuva de vaias sobre a equipe. Até o terrível "time sem vergonha" deu as caras.

Luís Castro, com toda a sua elegância, tentou aplacar os ânimos:

"Vejo com normalidade. Não há nenhum torcedor do Botafogo que esteja contente com a situação que está no momento. É normal o que acontece… Estamos num momento em que a equipe está mais desacreditada mentalmente… Tenho convicção que a equipe vai continuar na Série A, mas vender a ilusão de que se pode ser campeão, chegar à Libertadores, eu prefiro não vender. Nesse momento lutamos para ficar na Série A."

Pois é, o erro foi de quem acreditou em mais. E nem sei se são muitos os que iludiram-se. Horas antes da partida contra o Palmeiras, um amigo botafoguense anteviu a goleada. Eu disse que ele estava exagerando, que o momento tinha meio cara de empate. Depois dos 4 a 0, ele me escreveu: "Te falei. Conheço muito o Botafogo".

Não tem jeito. As SAFs podem ser o futuro do nosso futebol ou, no mínimo, o último recurso para alguns clubes em apuros. Mas ninguém conhece a gente como a gente. Ninguém entende que a gente odeia na segunda, ama na quarta e volta a detestar no final de semana. Com a mesma intensidade. E nenhuma paciência.

Oi, John Textor. Aqui é Brasil, cara.