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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Spray de pimenta, confusão e morte: onde nos perdemos

Torcedores do Coritiba sentiram efeitos do gás de pimenta usado para conter briga fora do Couto Pereira durante jogo contra o Palmeiras - Robson Mafra/Robson Mafra/AGIF
Torcedores do Coritiba sentiram efeitos do gás de pimenta usado para conter briga fora do Couto Pereira durante jogo contra o Palmeiras Imagem: Robson Mafra/Robson Mafra/AGIF
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

13/06/2022 15h54

Enquanto Coritiba e Palmeiras se enfrentavam dentro de campo ontem, no Couto Pereira, suas torcidas organizadas se enfrentavam do lado de fora. Ou melhor, enfrentavam a si e à PM do Paraná.

Há versões conflitantes sobre o que teria acontecido, mas as notas oficiais das duas organizadas envolvidas trazem praticamente a mesma versão, o que é notável considerando o embate entre elas. Segundo a Mancha Verde e a Império Alviverde, os policiais fazendo a escolta dos ônibus da Mancha teriam se perdido e levado a torcida palmeirense a desembarcar justamente onde estava a do Coxa. Não podia dar certo.

O que sabemos ao certo é que o pau quebrou e a polícia, como quase sempre, teve dificuldade para conter a balbúrdia sem violência. Teve pedra, correria e muito, muito spray de pimenta. Tanto que a fumaça invadiu o estádio e atingiu quem estava nas arquibancadas e até os reservas do Palmeiras, que se aqueciam próximos ao setor afetado.

A partida precisou ser paralisada para que torcedores e torcedoras, incluindo crianças, fossem retirados do anel inferior e levados a um local seguro. Notem: essas pessoas estavam do lado de dentro, nem sequer sabiam da briga que acontecia na rua. A bola parou de rolar e a briga nem era no estádio.

Em meio à confusão, um torcedor do Palmeiras de 25 anos, que aparentemente não se envolveu no confronto, morreu em consequência de uma crise causada por diabetes. Teve um pico de glicemia, foi levado ao hospital e não resistiu. Um jovem de 25 anos. Que tinha saído de casa para ver uma partida de futebol. E não voltou mais.

Minha única experiência com gás de pimenta aconteceu em ambiente parecido. Abertura da Copa das Confederações, em 2013, nos arredores do Estádio Mané Garrincha, em Brasília. Por cerca de 10 minutos, perdi contato com a minha família e precisei esconder-me atrás de um caminhão de transmissão para fugir da cavalaria da PM. Eu, como quase todo mundo ali, só estava tentando entrar para ver o jogo. Eu tinha credencial, minha família tinha ingresso. Nem sequer estávamos protestando.

Para quem nunca viveu essa experiência horrível, o spray causa profunda irritação nas mucosas dos olhos, nariz e boca. Tem efeito broncoconstritor. Tudo arde, sufoca-se e vem uma sensação de pânico. Ele pode cegar e até matar.

Mas será que já estamos cegos, inclusive para a morte? Ah, teve porradaria e morreu alguém. Segue o jogo, vamos falar de posse de bola, da liderança, do G4 e do Z4. Estamos anestesiados. As informações ardem, e a gente segue falando também do que não importa, não sei se por insensibilidade ou por não suportar mais tanta notícia ruim.

No dia em que essas notícias parecem confirmar a morte de dois homens que buscavam apenas defender e contar a história dos nossos povos originários, só consigo lamentar que a gente precise se acostumar com o que é trágico, para conseguir ser um pouquinho feliz, comemorar nossas vitórias, curtir um final de semana em família, ainda que sob anestesia.