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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres dominam dentro de campo: está na hora de comandar fora dele

Homens são maioria na equipe técnica da seleção brasileira feminina de vôlei  - Gaspar Nóbrega/COB/Gaspar Nóbrega/COB
Homens são maioria na equipe técnica da seleção brasileira feminina de vôlei Imagem: Gaspar Nóbrega/COB/Gaspar Nóbrega/COB
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

06/08/2021 14h38

Eu já tinha planejado escrever uma das colunas olímpicas sobre mulheres. Não sabia exatamente quando ou o ângulo, porque são muitos. Representatividade, vitórias, derrotas, percalços, preconceitos.

Pensei em deixar para o domingo, mas a realidade, como sempre acontece, atropelou-me. As notícias foram chegando e a necessidade de escrever hoje mesmo se impôs sobre a minha programação original.

Teve o passeio do vôlei feminino contra a Coreia do Sul, colocando nossa seleção em mais uma disputa pelo ouro. A confiança e o domínio em quadra, depois da difícil notícia do corte de Tandara, renovaram aquela sensação tão ansiada de: "A gente é foda mesmo, obrigada. Próxima!"

Enquanto isso, numa pista não longe dali, Allyson Felix se tornava a mulher mais condecorada do atletismo, com nada menos do que dez medalhas olímpicas. A última delas, um bronze nos 400 metros, conquistada aos 35 anos, depois de uma dolorosa batalha contra a indústria pelo direito de ser uma atleta mãe.

Sem ela, a Nike provavelmente não haveria instituído políticas decentes de licença-maternidade para suas atletas, garantindo pagamentos e bônus por 18 meses. Até então, a vasta maioria tinha seus contratos rescindidos ou reduzidos drasticamente, obrigando muitas a decidir entre a carreira e a maternidade. Isso se chama discriminação. Infelizmente, um conceito bastante familiar a quase todas as mulheres do mundo.

Esta foto (Allyson, em toda sua glória, medalhas e cicatriz da cesárea de emergência que precisou fazer com 32 semanas) é das coisas mais poderosas que você verá hoje. Um alento na semana em que precisamos lidar com a notícia medieval do requerimento de autorização de marido para implante de DIU.

Muito se propagou a quase paridade do número de atletas homens e mulheres nestes Jogos. De fato, algo a celebrarmos. Como ariana geração anos 80, porém, tenho dificuldade de comemorar o que me parece o mínimo, em pleno 2021. Vindo de um evento que só em 2012 incluiu mulheres em todos os esportes (com a adição do boxe feminino).

O salto com vara masculino esteve na primeira edição dos Jogos Olímpicos, em 1896. O feminino entrou em 2000. Você leu corretamente: 104 anos depois.

Vamos comemorar criticamente, ressaltando também o importante levantamento realizado pelo Female Coaching Network, com a quantidade de treinadoras ou treinadoras assistentes nos esportes coletivos presentes em Tóquio. Se pensarmos que praticamente metade das atletas são mulheres, e elas estão representadas em todas as modalidades, os números são chocantes:

Nado sincronizado: 69 vagas - 63 mulheres = 91%

Baseball / Softball: 26 vagas - 10 mulheres = 38%

Basquete: 78 vagas - 12 mulheres = 15%

Futebol: 59 vagas - 9 mulheres = 15%

Handebol: 29 vagas - 2 mulheres = 7%

Hóquei sobre Grama: 46 vagas - 7 mulheres = 15%

Rugby 7: 25 vagas - 0 mulheres = 0%

Vôlei: 48 vagas - 4 mulheres = 4%

Polo Aquático: 22 vagas - 2 mulheres = 9%

E, adivinhem só, o presidente do Comitê Olímpico Internacional é homem, assim como são praticamente todos os presidentes das Federações Internacionais. E como foram seus predecessores.

Minha alegria hoje foi ver Bev Priestman, a técnica canadense do futebol feminino, garantir o ouro. A mais jovem do torneio, com apenas 35 anos, ela precisa se tornar regra, não exceção.

Não é aceitável ver tão poucas mulheres em posições de liderança. Certamente, não a esta altura do campeonato. Presidente ou treinador(a) é quem manda, quem toma as principais decisões, quem pensa o esporte, quem determina políticas. Como em empresas que se gabam das muitas funcionárias no plantel, mas não têm diretoras, a balança continua pendendo - e não é para o nosso lado.

Se você é dessas pessoas para quem restam dúvidas de que mulher pode fazer as mesmas coisas que homem, deixa eu te contar: não faz mesmo. Faz mais. Tipo, essa mina da imagem aí de baixo: a bicampeã olímpica no remo, Helen Glover, voltando de Tóquio para os seus três filhos. Bicho, quem têm duas gravidezes de gêmeos e cria três bebês entre duas edições de Jogos e volta à forma olímpica em um ano só pode ser sobre-humana. Como tantas mulheres guerreiras que a gente conhece, mas nem sempre reconhece.

Não basta termos emprego, vaga olímpica, algum espaço. É preciso termos a caneta, a prancheta, sermos também quem comanda. Levou de 1896 até 2021 para alcançarmos paridade no número de atletas. Precisamos avançar 125 anos em três se quisermos reparar injustiças e colocar as mulheres no lugar que merecemos: em todo lugar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL