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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rebeca, Fratus e o Brasil foda que podemos ser

01.08.2021 - Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Final dos 50m livre de natação masculino. Na foto, Bruno Fratus, medalhista de bronze - Jonne Roriz/COB
01.08.2021 - Jogos Olímpicos Tóquio 2020 - Final dos 50m livre de natação masculino. Na foto, Bruno Fratus, medalhista de bronze Imagem: Jonne Roriz/COB
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

01/08/2021 12h44

Difícil dizer mais sobre a importância das vitórias de Rebeca Andrade, em Tóquio. Agora, com o histórico ouro olímpico, tão raro para atletas do Brasil, e única mulher a conquistar mais de uma medalha em uma edição dos Jogos. E ainda falta o solo! Representatividade, talento, exemplos que, certamente, inspirarão toda uma geração de brasileiras e brasileiros.

E, para os que me cornetam porque raramente elogio homens brancos, aí vai: Bruno Fratus matou a pau. Depois de 32 anos de vida, 21 de natação e três Olimpíadas, ele consolidou seu nome no Olimpo, não só pelo bronze nos 50 metros livres, mas pela declaração ao sair da piscina.

Fratus costuma ressaltar que não é o mais forte, o mais alto ou o mais bonito entre os colegas. E que compensa tudo isso com trabalho.

"Os caras é grande, mas nós é ruim. Aqui é Brasil, não tem essa não. [...] Se é para deixar uma mensagem: Brasil, nós somos o melhor povo, o melhor país do mundo. Todo mundo aqui fora, eu moro nos Estados Unidos faz tempo, todo mundo paga pau para o Brasil, para o povo brasileiro. A gente é muito capaz. Assim como eu fiz hoje, se permitam ser o povo que a gente pode ser, o país que a gente pode construir. É isso, a gente está entre os melhores do mundo."

Não sei se concordo que americanos paguem pau para outras nações, mas a ideia de nos permitirmos ser o que podemos ser ecoou comigo pela madrugada. As Olimpíadas estão ressuscitando, para muita gente, o orgulho de ser brasileiro. Ver um medalhista nosso usar seu tempo de microfone para nos lembrar que somos foda encheu meus olhos de lágrima.

É tanto perrengue, tanta coisa que falta, que fica fácil esquecer do que temos - e ninguém pode tirar de nós. Nem o fogo, nem os fascistas. Temos cultura, música, natureza, jogo de cintura, balangandã. Temos talento que sobrevive à falta de estrutura, apoio, consistência.

Longe de mim glorificar a pobreza e a privação, os apesares que precisamos superar para brilhar. Precisamos melhorar e muito. Precisamos lembrar que ítalo Ferreira começou surfando em uma tampa de isopor, em Baía Formosa-RN, para que o próximo campeão olímpico de surfe não precise passar pelo mesmo. Que a próxima campeã da ginástica, no mínimo, tenha dinheiro para a condução.

Mas exaltar as Rebecas, os Ítalos, os Brunos, as Rayssas e tantas outras e outros serve não só de inspiração, como de lembrete. Lembrete de que somos muito capazes. Que podemos ser muito mais. Que, dadas as circunstâncias certas, podemos ser os melhores do mundo. Em qualquer coisa. E isso não é pouca coisa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL