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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mulheres no futebol e a verdadeira minoria burra

Jogue como uma mulher: apoio das atletas da seleção de futebol - Divulgação Peita
Jogue como uma mulher: apoio das atletas da seleção de futebol Imagem: Divulgação Peita
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

08/03/2021 14h09

Neste Dia Internacional da Mulher, vou aproveitar este espaço para desabafar mesmo.

Na semana passada, mais uma vez, escrevi sobre a acolhida que o futebol dá a condenados por crimes violentos. A grande maioria dos comentários que recebi foi positiva, inclusive uma menção honrosa do colega José Trajano, no Fim de Papo de ontem, mas não faltaram - como nunca faltam - os imbecis.

Os que, de novo, mandaram-me calar a boca, parar de falar de futebol e ir lavar louça (o pessoal tem uma obsessão intrigante com louça), deixar de feminismo e outras pérolas menos publicáveis. Cara de anta esquerdista foi uma nova, aliás.

Por que gastar caracteres com essa gente, se são minoria, talvez você se pergunte. Porque essa minoria é eficaz, agressiva. Essa minoria expulsa mulheres, pessoas negras, LGBTs e tantos outros que buscam apenas a igualdade. Buscam ocupar um espaço que é seu também. Mas essa minoria não quer e essa minoria é vil. Machuca.

Essa minoria faz a gente pensar: eu preciso disso? Não é melhor ir fazer outra coisa mesmo? Para que me sujeitar a xingamentos por causa de futebol? Vale a pena?

Essa minoria gera um ciclo vicioso, que permite a perpetuação de um cenário dominado apenas por homens brancos hétero. E não que estes homens não sofram com haters, claro. O futebol parece suscitar o que há de pior em algumas pessoas.

A diferença é que mulheres, negros, LGBTs etc. muitas vezes são atacados por quem são. A minoria atroz não questiona o posicionamento em si, mas quem o profere, quem, no seu entendimento estúpido, não deveria nem ter voz, quanto mais opinião.

Uma amiga que atua há décadas no esporte tentou convencer a filha adolescente a seguir seus passos. Incrédula, a garota respondeu: "Mãe, quase não tem mulher no seu trabalho. Coisa boa não deve ser. Deus me livre." Errada ela não tá. Mas espero que possa estar um dia.

Você, pessoa sensata que não compactua com a minoria, ajude-nos a criar um ambiente que seja hostil para ela, não para nós. Use a sua audiência para mostrar que apoia e acha fundamental a nossa presença, rechaçando qualquer comportamento agressivo.

A luta por igualdade passa pela exigência óbvia por respeito, mas também pelo entendimento de que pontos de vista diferentes enriquecem o debate, a vida. Vida, aliás, que a gente gesta e bota no mundo. Que a gente, tão frequentemente, precisa gerenciar nos mínimos detalhes. Mas aí a gente não consegue compreender a regra do impedimento, palpitar numa escalação, criticar uma contratação? Poupem-me os ovários.

E parem de me mandar arrumar a pia da cozinha. Tenho coisa melhor para fazer (e uma lava-louças, com a graça das deusas).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL