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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Troca-troca de treinadores: quem você não quer e por quê

Jorge Sampaoli e Cuca se cumprimentam antes de Santos x Atlético-MG - Fernanda Luz/AGIF
Jorge Sampaoli e Cuca se cumprimentam antes de Santos x Atlético-MG Imagem: Fernanda Luz/AGIF
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

17/02/2021 16h12

O campeonato vai acabando (mas já?!) e, para muitos clubes, é hora de pensar em mudanças. Futuro. Em 2021, o ano que nunca começa.

Torcedoras e torcedores do Atlético-MG tentam emplacar a campanha #CucaNão. O time que mais investiu em 2021 vê agora a possibilidade de perder seu atual técnico estrela, com uma melancólica campanha no Brasileiro que nunca emplacou de verdade. Sampaoli mira a Europa, podendo deixar para trás um trabalho modesto. Ao contrário da sua personalidade.

O argentino deixaria para trás também - e novamente - uma cultura digna de seu próprio #SampaoliNão. Os relatos que chegam de seu tempo na Vila e agora, na Cidade do Galo, são de um homem arrogante, segregacionista e de poucos amigos. Possível cúmplice, inclusive, do surto de Covid que atingiu a equipe em novembro, num episódio lamentável.

O movimento contra sua substituição por Cuca passa pelo caso de estupro coletivo de uma menina de 13 anos, na Suíça, em 1987, pelo qual o brasileiro e mais três foram condenados. Levou mais de 30 anos, mas a conta começou a chegar. Claro que isso não impediu Cuca de gravar um áudio minimizando o deprimente incidente de racismo sofrido por Lucas Braga: "Isso não é um crime que está acontecendo [...] De repente, fugiu o nome, pediu pro rapaz do lado: 'Como é o nome daquele mulatinho ali?' Pronto, isso não é ofensa nenhuma a ninguém." Em vez de apoiar, passar pano.

Renato Gaúcho, por sua vez, gosta de se destacar pelos comentários misóginos. "Vou te contar uma historinha sobre posse de bola. Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar à luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até às 5 horas da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu?" Entendi. Analogia estúpida e machista.

Estamos muito longe de eliminar racismo, misoginia, LGBTfobia e tantos outros problemas do futebol. É de reacender a esperança na humanidade, porém, ver torcidas se unindo para tentar impedir a contratação de profissionais por seu comportamento como um todo.

Da mesma forma que devem ganhar cada vez mais espaço os que se destacam por suas posturas positivas, como Lisca Doido, dando declarações corajosas sobre homofobia, Roger Machado na luta contra o racismo, entre outros. (Noto aqui a ironia de esta coluna dar tanto espaço aos exemplos negativos e pouco aos que devem ser seguidos. Mudança necessária para a nova temporada.)

Lógico que a competência seguirá sendo fator determinante para comandantes e comandados, mas não podemos mais ignorar as atividades extracurriculares de ídolos com tamanha plataforma de influência. Amanhã, pode ser meu filho, ou o seu, voltando para casa com a camisa de um estuprador, torcendo para um racista, emulando um homofóbico. Melhor evitar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL