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Alicia Klein

Um deus triste

Maradona em 1985 contra o Peru, pelas Eliminatórias - Arquivo AFA
Maradona em 1985 contra o Peru, pelas Eliminatórias Imagem: Arquivo AFA
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

26/11/2020 13h56

Maradona foi trágico. Como só poderia ser um herói argentino. Na minha visão romântica, os argentinos amam o verdadeiro amor - aquele que abraça o bonito e o feio, que admite e até celebra publicamente as imperfeições. Ao contrário do amor brasileiro, mais arrumadinho, asseado, todo mundo fingindo que tá feliz, aquela "simpatia" fake tupiniquim.

Desde ontem, quando mais uma notícia bosta de 2020 pareceu nos pegar de surpresa sem exatamente surpreender-nos, a imprensa vem celebrando Maradona como um ídolo "complexo". A soma do talento sublime com preocupação social, drogas, vexames, algumas contradições políticas e muitos excessos resultou em proporções divinas para o Pibe. Mais do que a mão de Deus, ele foi Deus. Porque um argentino não cultua um Deus que não o faça sofrer.

Comparar Pelé e Maradona é, para mim, um exercício não apenas desnecessário como também inexequível. A paixão dos argentinos pelo futebol e por seu país é tão absurdamente maior que a nossa, que nunca estes homens significarão algo parecido. Ao menos não no que toca o mais argentino dos órgãos: o coração.

A dúvida que carrego no meu é: o que aceitamos tolerar dos ídolos que escolhemos reverenciar? Aos nossos, a compaixão. Aos outros, o vilipêndio. Seja pela habilidade sobrenatural, pelo amor a Cuba, pela defesa dos mais pobres, pela saída melancólica da Copa de 1994, ou simplesmente por aqueles quatro minutos do jogo contra a Inglaterra, em 1986, muitas e muitos de nós resolvemos abraçar El Diez e agora chorar sua morte como um golpe injusto na alma já combalida.

O jornal Clarín de ontem publicou, como sempre, linhas extraordinárias que toda jornalista gostaria de ter escrito. Entre elas: "Talvez sua maior coerência tenha sido a autenticidade em suas contradições. Não deixar de ser Maradona mesmo quando nem ele podia suportar-se. Seguir abrindo sua vida e, nessa caixinha de surpresas, ir desnudando grande parte da idiossincrasia argentina. Maradona é os dois espelhos: aquele em que temos prazer de nos ver e o outro, que nos envergonha."

A tristeza que senti ontem veio carregada de culpa. A imperfeição, a complexidade, os excessos de Diego tiveram consequências violentas para quem andou à sua volta. Agressão física, abuso psicológico e transfobia são algumas das manchas que meu paninho não consegue tirar. Esfrego, lembro de sua importância para a soberania latina, ensaboo, penso na alegria que deu a tantos que sempre tiveram tão pouco. Mas o borrão segue lá, maculando meu luto.

Por que a atletas (leia-se homens) é dado passe livre fora das quatro linhas, desde que acertem seus passes lindamente dentro delas? Por que engolimos nossas convicções para poder comemorar ou sofrer, hipnotizados, as alegrias e dores do esporte? Qual deve ser a régua? Cheirar cocaína, bater na mulher, bater o carro, votar em fascista? Quem sobra no final dessa conta? Sinceramente, não sei. Mas sei que 2020 podia acabar logo, sem mais perdas, tristezas ou questionamentos profundos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.