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Alicia Klein

Olá, racista

Renato Gaúcho e Roger Machado durante aula de licença PRO na CBF - Divulgação
Renato Gaúcho e Roger Machado durante aula de licença PRO na CBF Imagem: Divulgação

19/11/2020 15h55

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Se você é uma pessoa branca e está lendo essa coluna, seja bem-vinda e não fique à vontade. Se você é uma leitora ou leitor negro, agradeço de antemão a paciência.

Acho que vale aqui a ressalva de que eu não me considerava racista. Até entender, recentemente e graças a autoras e autores negros, que toda branca e branco é racista na medida em que se beneficia de um sistema estruturalmente racista (Silvio Almeida <3). E que não basta não ser racista. A luta exige ação: é preciso ser antirracista (Angela Davis <3). Mas não tenho nem lugar de fala (Djamila Ribeiro <3) nem roupa para discorrer com propriedade sobre um assunto tão complexo.

O que posso fazer, no entanto, é não desperdiçar este espaço já que, miseravelmente, são muitos os recortes possíveis do racismo no esporte. Escolha uma área e nela encontrarás discriminação.

A que tem me chamado atenção recentemente é representatividade. Poderia falar de Lewis Hamilton, que tornou equivocado e obsoleto o título da biografia que escrevi sobre Schumacher, chamando-o de "o melhor de todos os tempos". Mas talvez precise de um novo livro para cobrir tudo o que este homem representa para o presente e o futuro.

Hoje, quero focar em não-atletas. Na nefasta falta de representatividade na gestão e na mídia. No comando de times, na presidência de clubes, nas bancadas do noticiário esportivo, fazendo comentários ou narrando.

Um dos excelentes episódios do podcast Ubuntu Esporte Clube discorre sobre a visão racista embrenhada na nossa sociedade do negro como talentoso, forte, potente, mas que precisa ser gerido pelo branco, inteligente e estratégico. Confesso que me soa tão estúpido que dói até reproduzir, mas está aí mais um reflexo da minha branquitude: achar absurdo por ter o privilégio de não sentir na pele.

Confirmando essa percepção, uma recente matéria da maravilhosa Débora Gares traz um levantamento britânico sobre como jogadores de futebol negros são tratados de maneira diferente nas transmissões. Percentual de comentários positivos para os negros, por exemplo: 84% velocidade, 87% força, 37% inteligência, 43% liderança.

Essa dose amarga de realidade ajuda a explicar como, num esporte sustentado por ídolos negros, tão poucos se tornem treinadores, comentaristas, gestores. É racismo que chama. Como mudar isso senão pelo aumento vertiginoso da presença negra nesses espaços, quebrando o ciclo vicioso de branco que levanta branco? Brancos, afinal, ainda que engajados na luta antirracista, nunca exercerão os papéis necessários para derrubar séculos de opressão. Não nos convêm.

É inegável a existência de movimentos de algumas emissoras para mudar esta realidade (recomendo seguirem o Coletivo Diáspora, grupo criado organicamente por pretas e pretos dos Canais Globo). Mas me parece completamente absurdo considerar evolução a presença de duas ou três pessoas negras comentando jogos, uma ou duas mulheres apresentando programas. Até porque qualquer pessoa que suporte meia hora de algumas mesas redondas por aí sabe que a mediocridade do homem branco não é rara.

Escancara-se aí outro privilégio da minha branquitude: a impaciência. A maioria da população, negra, precisa ser estratégica, encontrar equilíbrio e resiliência para (literalmente) sobreviver num país que a massacra. Você, pessoa branca, pode começar se incomodando, se irritando, cobrando, o tempo todo. Cobre sua empresa, o canal a que assiste, o clube para que torce, os estabelecimentos que frequenta, a família e quem mais cruzar seu caminho. Não aceite a ausência negra em nenhum ambiente da sua vida. Ser antirracista é sua obrigação.