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OPINIÃO

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Por que Gronkowski foi o parceiro ideal para que Brady virasse lenda da NFL

Tom Brady e Rob Gronkowski - REPRODUÇÃO/INSTAGRAM
Tom Brady e Rob Gronkowski Imagem: REPRODUÇÃO/INSTAGRAM
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

22/06/2022 12h13

Scottie Pippen, o famoso coadjuvante de Michael Jordan nos seus seis títulos de NBA, certa vez disse que ele não queria os holofotes e o reconhecimento individual. "Eu espero que ele [Jordan] ganhe o prêmio de MVP todos os anos até o fim da sua carreira. E, quando ele aposentar, eu vou poder apontar para ele e dizer: 'Eu ajudei. Eu joguei com o maior jogador de todos os tempos'".

E eu não consegui deixar de lembrar das palavras de Pippen quando o tight end Rob Gronkowski anunciou sua (segunda) aposentadoria da NFL, e também em pensar no homem cuja carreira estará para sempre ligada à dele: Tom Brady, amplamente considerado o maior quarterback de todos os tempos e uma lenda viva do esporte.

Não que Gronk precise da associação com Brady para se destacar entre os grandes da história. O seu currículo fala por si só: quatro títulos de Super Bowl, 5x eleito para o Pro Bowl, 4x All Pro, eleito para o time da década de 2010 da NFL, e uma série de recordes com números absurdos. Gronk é indiscutivelmente o TE mais dominante de todos os tempos, possivelmente o maior TE de todos os tempos, e um jogador que vai entrar no Hall da Fama no primeiro ano que estiver elegível.

Mas sua trajetória também estará para sempre associada à de Tom Brady. É um simples fato de que ninguém chega no topo do esporte como fez Brady sozinho; você precisa de uma série de circunstâncias a seu favor para isso, e principalmente de grandes companheiros que possam tirar o máximo dos seus talentos. E se ao longo de seus gloriosos 23 anos de carreira (e contando) Tom Brady jogou com um número enormede grandes jogadores, muitos dos quais estão ou estarão no Hall da Fama - Ty Law, Richard Seymour, Vince Wilfork, Randy Moss, Adam Vinatieri, Darrelle Revis, Logan Mankins - nenhum deles formou uma pareceria maior e mais vitoriosa com o quarterback do que Rob Gronkowski.

Ter Brady lançando passes sem dúvida ajudou Gronk na sua carreira (o TE nunca jogou uma temporada com outro quarterback), mas isso é verdade de quase todo grande recebedor da história. Mas, em Gronk, Brady achou o parceiro perfeito dentro e fora das quadras para transformar o que já era uma carreira de Hall da Fama e um dos maiores da história, na do mais vitorioso que já vimos e inquestionavelmente o maior QB de todos os tempos.

Volte para 2010, quando Gronk foi escolhido pelos Patriots na segunda rodada do Draft, e tente lembrar como era a carreira de Tom Brady na época. Brady já tinha três anéis de campeão e já era colocado (com razão) entre os grandes QBs de todos os tempos, mas era uma percepção bem diferente em relação ao destruidor de mundos imbatível de hoje. Seus três Super Bowls vieram no começo da sua carreira, em um momento onde o time era montado ao redor da sua espetacular defesa e o papel de Brady era mais de controlar o jogo de forma eficiente. Em 2010 Brady já tinha assumido o manto de protagonista e liderado grandes ataques, em especial a lendária temporada 2007 na qual bateu todos os recordes da NFL, mas ele ainda não tinha vencido nenhum título nessa função. New England tinha chegado perto o suficiente para se acreditar que um quarto anel ainda estava por vir, mas as derrotas foram se sucedendo em playoffs ao ponto de que Brady não parecia - nas palavras de Thanos - inevitável.

Gronk mudou isso por completo, e não apenas por adicionar o mais dominante TE de todos os tempos ao leque de opções do camisa 12. Gronk foi feito para jogar a posição: grande demais para ser marcado por safeties ou cornerbacks, rápido e atlético demais para linebackers, com excelente leitura de jogo e execução de rotas, o século XXI não conheceu nenhum jogador mais impossível de ser marcado que Gronkowski. E essas características deram a Brady - um dos jogadores mais cerebrais da história - uma peça de xadrez que ele podia usar para colocar as defesas nos seus termos: ele podia mover Gronk para qualquer lado para obrigar a defesa a se ajustar, e criar as vantagens que Brady queria sem o TE sequer precisar encostar na bola. Nenhum jogador podia marcar Gronk no 1 contra 1, e era um missmatch contra qualquer adversário; mas, se a defesa enviasse a inevitável dobra contra ele, então isso distorcia todo o resto do esquema defensivo e abria diversos espaços e alternativas para Brady encontrar com sua precisão cirúrgica. Era um esquema ofensivo de dois homens, e que não apenas era dominante em si, mas elevava de forma incrível todo o resto dos jogadores ao seu redor dessa maneira.

Para melhorar, Brady e Gronkowski (dois jogadores de enorme inteligência em campo) desenvolveram um entrosamento quase sobrenatural, executando as leituras em sincronia a cada jogada e encontrando os mesmos espaços nos mesmos momentos. Os Patriots não lançava a bola tanto na direção de Gronk como poderiam, em parte por causa das lesões do jogador e para poupar seu físico, mas quando os jogos estavam no seu limite, você sabia exatamente quem iria receber a bola - e não tinha nada que pudesse fazer a respeito.

Talvez o melhor exemplo seja a vitória dos Patriots contra a feroz defesa dos Steelers em 2017, em um jogo que valia a seed #1 da AFC. Com New England precisando de um TD faltando dois minutos para virar a partida, Brady lançou cinco passes na campanha final: todos eles foram para Gronkowski, que completou recepções de 26, 26 e 17 jardas (além da conversão de dois pontos) contra marcações duplas e até triplas para virar o jogo para New England.

A conexão entre Brady e Gronk era tão forte que, mesmo após Gronk se aposentar em 2019 por problemas físicos, ele voltou à NFL em 2020 apenas para jogar com o único QB que ele tinha conhecido, pedindo e recebendo uma troca para o Tampa Bay Buccaneers e se juntando novamente a Brady. E, se durante o ano Gronk teve um papel discreto, foi para seu velho conhecido que Brady virou no Super Bowl, completando 6 passes para 67 jardas e 2 TDs com o TE para comandar o quarto título da dupla, o sétimo de Tom Brady.

Se Gronkowski realmente aposentou de vez agora, ninguém além dele pode dizer. Ele voltou uma vez; pode voltar de novo. Mas é difícil imaginar Gronk jogando por outro QB que não seja Tom Brady, e se isso realmente é o fim da linha para ele, ele deixa para trás um legado gigantesco, histórico e duplamente impressionante: como mais dominante TE da história da NFL, e como principal companheiro do maior quarterback que o jogo já viu.